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Autor


Sobre o autor

27 anos desenvolvidos na velha Osasco e na Paulicéia Desvairada, mas divididos por explorações na América do Sul, Europa e África.

Muito do que vi e senti geraram os contos e reflexões desse blog. Atualmente, estou produzindo um livro, cujos primeiros capítulos você encontra aqui. Sente-se e leia uma história, viajante.

Perfil

Deepak Bhagya

Contato

Diego Palomo

E-mail: slash5000@gmail.com

Posts do Blog

Puxe uma cadeira e leia uma história.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Adonis, o Corcunda.

Esse é o primeiro capítulo de um novo livro. Leia se quiser, mas se ler, faça o favor de dar sua opinião nos comentários. Obrigado e volte sempre.

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Adonis, o Corcunda




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Osasco, 2004.

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A garoa fina caía intermitente á três dias. Embora o inverno costumasse ser seco, aquele junho era descomunal. Por mais de uma vez chovera o suficiente pra alagar a rua em frente á escola e causar transtornos na hora da saída.

- 'A melhor escola da região', eles diziam. 'Lá você vai estar com os melhores', eles diziam. Olha pra gente, cara. - César chutou uma garrafa vazia de refrigerante rumo ao portão.

A adolescência o estava transformando do garoto gordinho e tímido da infância em alguém com estrutura boa o suficiente pra jogar em qualquer time de futebol americano. Começara á perceber o respeito que isso impunha, mas ainda era frágil como um papel na auto estima. E a timidez continuava lá, como o saco de pedras que sempre fora.

- Mas aqui é muito bom, sim. Você acha que as outras escolas da cidade são melhores ? Mataram um moleque na porta do Pestana, seu gordo. - replicou McCoy.

- Gordo é o cacete!

Eram melhores amigos desde os nove anos. No começo da amizade, McCoy era um novato isolado no fundo da sala da terceira série. 

Passava os primeiros dias desenhando na carteira e preenchendo cadernos de caligrafia.

César, o diplomata dos inválidos, decidira abordá-lo. Não da melhor forma, diga-se de passagem. Ele não era bom no tato social.

"Que letra feia da porra, cara!"

"Sai fora daqui, cacete!"

"Porra, mas tua letra é muita feia! Feia como o demônio!"

"Feia é tua pança!"

"Olha o respeito, mané. Qual teu nome ?"

"Que te importa ?"

"Meu nome é César. Prazer."

E foi estendendo a mão e com esse digno diálogo entre dois cavalheiros que a amizade começara.

Agora, seis anos depois e muitas salas de aulas compartilhadas, muita coisa mudara. McCoy saíra do isolado para um moleque relativamente popular, que tinha como grande conquista até aquele momento o prêmio de pessoa mais legal do ensino fundamental, entregue em mãos no dia da formatura.

Engraçado o tipo de coisa que tem valor aos catorze.

Já César, o diplomata, afunilara por um caminho meio tortuoso entre rejeições amorosas, trocas de socos esporádicas e o título de melhor aluno da sala por três anos seguidos.

O problema é que, bem, nas escolas públicas de Osasco, ser o melhor aluno pouco importa. É uma espécie de honra desonrada. Você não come ninguém, não conquista respeito e nem mesmo a escola dá muita atenção.

Mas nem tudo era perdido : o grande prêmio de ser muito bom nas aulas era que na hora da reunião de pais, seu lombo e seus ouvidos eram poupados. 

César sempre jurava que o chinelo Rider de seus pais tinham propriedades de tortura física e psicológica desenvolvidos pela Inquisição Espanhola.

Ninguém acreditava e todos riam, como sempre era com ele, mas um dia ele apareceu com uma bela marca de chinelada na perna, e então, a história ficou muito verossímil dentre os povos da oitava série.

"Agora vocês acreditam em mim, seus merdas ?!" disse, com um orgulho indefectível típico de um sobrevivente de guerra.

A caminhada dos dois atravessou o portão principal da escola e adentrou o pátio descoberto. O chão era marcado por pequenas pedras e concreto sujo. César vestia sua camisa xadrez inseparável e a velha calça jeans rasgada intencionalmente nos joelhos. McCoy tinha o cabelo fino até os ombros, um projeto de barba no queixo, e um all star igualmente inseparável com várias inscrições á caneta e a miniatura de um peixe - o peixemorto - amarrado no cadarço. Era pouca coisa menor do que o amigo, mas definitivamente mais magro.

"Grunge is not dead", é o que ambos viviam falando pra quem questionava o estilo.

Do lado direito do pátio ficavam as duas quadras, nos quais disputavam todas as quarta feiras de chuva um esporte recém inventado pelos dois, de muito sucesso, chamado Toscobol.

O Toscobol nada mais era do que o popular futebol, todavia, jogado numa quadra com vastas poças d'água, uma bola em más condições e com todos jogadores péssimos no trato com a pelota.

Ficaram famosos os lances nos quais McCoy, ao tentar efetuar um chute de efeito na frente de uma bela fêmea, escorregou, caiu - não para a frente, não para trás, mas exatamente de lado - e se espatifou como uma melancia.

Também soaram pelos cantos mais ínfimos daquele lugar o dia em que César entrou com bola e tudo no gol, mas na emoção do momento acabou se enrolando na rede e não conseguiu mais se soltar.

Á despeito dos esforços homéricos de seus amigos, foi preciso chamar o zelador Adonis, um senhor de 86 anos, já mais pra lá do que pra cá, que com muito mal humor cortou um pedaço da rede com um alicate e o soltou, na frente de uma plateia extasiada com a desgraça do garoto.

O chamavam de Adonis, o Corcunda, porque ele andava completamente curvado e te encarava sempre olhando por cima dos óculos. Era marido da inspetora mais antiga da rede de ensino da cidade (Maria Antonieta, que César chamava carinhosamente de Bruxa de Blair), uma senhora que tinha como amável característica bater nos alunos com a corrente do portão quando alguém tentava cabular aula.

E é exatamente Adonis, o Corcunda, o Cortador de Redes, o Zelador do INSS, o Domador de Bruxas, que teria a ver diretamente com os fatos que aconteceriam a seguir - e que os aspirantes á Kurt Cobain mal podiam imaginar.


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segunda-feira, 27 de março de 2017

Morphilia Pt 3





Não houveram devaneios.

Apenas um longo e silencioso vazio, que fora quebrado por uma dor terrível de cabeça.

Abri os olhos e tentei levantar. Minhas roupas apresentavam pequenos rasgos e minha pele estava bem ralada nos braços e pernas. Passei a mão na têmpora, bem aonde a cabeça doía, e senti um galo generoso se formando.

A névoa da confusão era forte, mas logo o senso de sobrevivência me fez acordar.

Aonde eu estava ? Quanto tempo havia passado ?

Quando finalmente me sentei e comecei a tatear e olhar ao redor, me dei conta de que aquela paisagem não era estranha, mas tampouco era o Caribe aonde eu estava antes.

Parecia ser um final de tarde chuvosa. Estava numa calçada, larga e comprida, com lojas fechadas ao redor dos dois lados. Não passavam carros.

Uma senhora passou com uma menina do lado. A menina me olhou curiosa, e quando a senhora notou, olhou para minha direção de forma vaga e então perguntou para o que ela estava olhando. A resposta foi um forçado "nada, vó".

Muito prazer, sou um nada. Então era assim socializar parecendo um morador de rua.

Mágico.

Um clique na mente ao pensar essa palavra. Mágico. O homem na televisão. A fera no calabouço. Os olhos que brilhavam de forma descomunal.

Levantei e resolvi andar em busca de uma delegacia ou de direções da embaixada. Precisava me comunicar com o Brasil. Depois, iria atrás de um hospital ou qualquer lugar que pudesse constatar que eu estava OK.

Tão rápido quanto a tempestade que por duas vezes tentou me destroçar, foi a surpresa que tomaria quando me dei conta do que havia acabado de acontecer.

A senhora e a menina haviam falado o maldito português. Com o sotaque de onde eu morava.

Novamente a sensação de estar perdido, a mesma sensação ao estar caído no convés, a mesma sensação ao descer correndo as escadas do hotel e encontrar a mulher que olhou através de mim, a mesma sensação de "as leis da minha física não se encaixam nessa realidade".

Notei que ao fim daquela espécie de calçadão havia uma banca de jornais aberta.

Caminhei o mais rápido que pude - meu joelho esquerdo estralava a cada pisada mais apressada e parei em frente aos jornais expostos do lado de fora.

Dentro, um homem de meia idade, calvo, óculos quadrados. Fazia com atenção uma revista de palavras cruzadas e sua xícara de café fumegava em cima do balcão de balas.

Decidi não incomodar. Provavelmente me espantaria ás vassouradas e me chamando de drogado assim que eu contasse que havia parado ali depois de ter sobrevivido duas vezes á um tal de Hernandez.

O jornal em destaque foi um soco no estômago.

"Folha de São Paulo, 17 de Janeiro de 1987"

Senti minha pressão oscilar, o suor frio subir á testa, o equilíbrio se perdendo.

Era como ser criança e estar perdido no mercado.

A notícia de título era "Sarney, com Ernesto Geisel, passa por grevistas e liga a turbina".

Caralho. CARALHO.

Á despeito de ter um presidente merda, não havia mais nada em conexão com a minha real época. Olhei para a rua adiante e vi os carros quadrados da Volkswagen estacionados.

Procurei o celular no meu bolso e ainda estava desligado. Apertei o botão de ON e torci desesperadamente que ainda houvesse carga.

Dois, três, dez segundos. E então ele liga.

Os nove por cento ainda estão lá, mas não há sinal. Uma moça se aproxima de onde estou.

A maquiagem pesada, a saia quadriculada, uma camisa do The Smiths.

Em tempos normais, eu perguntaria o telefone.

Agora eu só queria que me falasse que eu não estava esquizofrênico.

"Hey, tudo bem ?"

Mas ela passa direto, sem sequer se virar o olhar á mim.

"Malditas roupas rasgadas".

A moça pede uma ficha de orelhão. Agradece com um sorriso e paga com uma nota que não consigo identificar.

"Aqui seu troco, cinco cruzeiros", devolve o senhor das palavras.

Assim que ela sai, decido interpelá-lo. Encosto no balcão e pergunto aonde existe uma delegacia por ali.

Silêncio.

Irritado, dou um tapa no vidro.

Nada.

Plácido e concentrado, o jornaleiro parecia o ser humano mais feliz do mundo ao me ignorar.

Saio andando, desorientado, e após duas quadras, vejo um supermercado aberto. Entro com pressa e decidido á me fazer ser ouvido. Na pior das hipóteses seria preso. E aí poderia falar com alguém responsável.

O mercado era grande, e estava razoavelmente cheio. Uma voz anunciava as promoções e convidava os clientes.

"Venham aproveitar as ofertas do fim do mundo."

O que se seguiu foi apenas a intensificação do efeito obliteração. Nada ouviram, nada viram. Quando eu lhes encostava, embora pudesse senti-los plenamente, eles não podiam. E mesmo quando eu tentava lhes dar um tapa, o efeito era o mesmo que nada.

Desolado, encostei no fundo da seção de bebidas, e encarei os vasilhames de cerveja Antartica se empilhando empoeirados esperando um comprador aparecer.

Uma outra voz no falante voltou á se pronunciar :

"E agora uma notícia triste...328 mortos em passagem de furacão pela América Central"

Minha espinha gelou. Era óbvio que não era o anunciante.

Era a voz do mágico. Era a voz da besta.

"Menos um caro amigo, senhoras e senhores, que viu muitas coisas especiais nesse dia, e há de ver muitas mais antes que o tempo deixe de ser tempo..."

Levanto sobressaltado. O medo e a dor se transformam em raiva mortal. Se aquilo era um manicômio no qual fora trancado, então melhor seria acabar lutando.

Procuro pelos corredores, um a um, aonde está ele com o microfone.

"Eu posso ver o que há em você. Posso cheirar. Posso sentir o seu medo. Eu sei o que você é."

Aquela expressão agora ecoava forte na memória.

Iria sentir o meu ódio, bastardo.

A cada corredor meu coração acelerava, certo de que o encontraria no final. Punhos fechando, a adrenalina correndo veloz pelas veias.

Foi então que, no penúltimo deles, algo prendeu minha atenção na visão periférica.

Um homem alto e esfarrapado, ao menos dois metros de altura, me encarava. Não através de mim, não ao meu lado, não me ignorando. Á mim.

Vestia um capuz sujo, com calças surradas. Seus pés eram descalços e era largo como um touro. Analisei, em total tensão, cada detalhe daquilo que claramente me desafiava.

Haviam ainda cicatrizes profundas nos braços expostos e uma marca horrível de queimadura na face direita.

E o fedor...fedia á putrefação.

Senti o medo tentar voltar e me dominar, mas consegui manter o controle diante da sensação de que aquilo poderia ser o fim.

Ele tomou impulso e com um grito gutural, se lançou em minha direção. Ele era muito mais rápido do que eu poderia imaginar, e minha única reação foi me jogar para o lado.

O homem de negro bateu com um estrondo enorme me uma prateleira de refrigerantes que desmoronou totalmente e gerou gritos dos clientes olhando em nossa direção.

Levantei o mais rápido que consegui e disparei em direção a saída. As portas começaram á ser fechadas por funcionários apressados. Um homem engomado falou em voz anasalada :

"Ninguém sai até eu conferir se nada foi roubado"

"Filho da puta!" pensei eu. "Estão tentando me matar, apenas isso, seu merda".

Passo correndo por ele, que, voilá, nada percebe. Pulo para trás do balcão do açougue. O homem de preto vinha caminhando daquela forma encurvada, como um urso sobre duas patas.

Abriu um sorriso e mostrou dentes afiados e enormes. Uma gargalhada ruidosa saiu pela garganta.

"Mas vejam só, senhoras e senhores, que temos carne fresca no açougue chegando agora mesmo..." - disse a maldita voz de sempre no auto falante.

"SERÁ A DELE, E DEPOIS A SUA, MALDITO!" urrei. Eu nunca havia brigado na vida. E esse era eu, jurando de morte um animal com o dobro do meu tamanho e um cara que ressuscitava mortos e fora aprisionado e isolado num navio pirata.

Notei o facão em cima da mesa de corte. Peguei e corri para dentro da sala de refrigeração, me escondendo entre as peças penduradas.

"Que lugar para morrer".

Um silêncio sepulcral perdurou por alguns segundos, e fora quebrado pelo barulho do vidro quebrando e do balcão do açougue se partindo.

A respiração do homem bestial era pesada e foi se tornando cada vez mais alta. Ele finalmente surgiu na entrada da sala, e caminhando lentamente, fungou a primeira peça pendurada. A lambeu na parte mais gordurosa e soltou um grunhido de satisfação.

"CARNE...SANGUE...QUENTE.......VOCÊ"

Segurei firme com as duas mãos o facão. Olhei para a região do pescoço. Era desprotegida. Se eu usasse o elemento surpresa, poderia matá-lo ou ao menos feri-lo feio o suficiente pra dar o fora dali.

E nunca mais pisar num frigorífico novamente. Ou em países com furacões.

Me esgueirei por trás das peças da direita da forma mais silenciosa possível. Parei, controlando até o ultimo momento da minha respiração, logo atrás de onde ele estava.

Ele virou o rosto para a esquerda e então eu levantei a faca em riste e tentei cravá-la o mais forte e rápido que pude em sua garganta.

O golpe inicialmente o atingiu, mas assim que a faca penetrou os primeiros centímetros da pele rígida, ele se virou e com um murro abissal me acertou em cheio no ombro enfaixado.

Voei de encontro á parede e senti uma dor descomunal percorrer todo o meu lado esquerdo. Era como se algo estivesse dilacerando cada milímetro da minha alma até a pele.

Gritei de dor e as lágrimas verteram. Vi minha clavícula deslocada e meu braço esquerdo quebrado.

Á despeito de toda a vontade de sobreviver, eu estava entregue. A dor incontrolável havia me atingido de forma determinante e eu mal conseguia me apoiar para levantar.

O homem fera se virou para mim, espumando, e retirou a faca do pescoço. Para meu azar, ela havia entrado apenas o suficiente para fazê-lo sangrar, mas não ao ponto de atingir a artéria ou as vias respiratórias.

Aquele era meu fim. Fechei os olhos e pensei em tudo que havia vivido e deixado de viver.

Mas não houve o famoso filme.

A voz agora ecoava ainda mais forte na minha cabeça.

"Eu sei o que você é"

Uma frieza ímpar foi me tomando.

"Eu posso sentir você"

De repente, não havia medo ou desespero diante da morte. Uma calma mortal, um sentimento de controle absoluto.

A fera avançou sobre mim e se ajoelhou sobre minhas pernas. Colocou uma das mãos sobre meu pescoço e com um sorriso sádico, começou a apertá-lo devagar.

A voz do mágico, da fera do navio, aquela voz, começou á soar em uníssono com a minha, que agora simplesmente fluía em um idioma fora do meu controle.

"Veit ég að ég hékk..."

A imagem de um homem de chapéu com um corvo no ombro e um cajado perpassa minha visão.

"vindga meiði á"

Vejo runas. Ouço um cântico tão belo, que nunca ouvira antes.

"nætur allar níu"

Sinto uma força tomar conta de mim. Um calor como de mil sóis me preenche.

"geiri undaður"

E então um guerreiro. Barbado, em trajes nórdicos de guerra. Um machado enorme e entalhado pende de sua mão direita. Ele olha para mim. Seu rosto é marcado pela guerra. Mas tudo que sinto é sua sabedoria e coragem.

"og gefinn Óðni"

Ele me estende a mão. E sinto como se nós fossemos realmente apenas um. Passado, presente e futuro.

"sjálfur sjálfum mér!"

Respiro fundo e sinto a presença em meu coração. O homem fera percebe algo em meus olhos. Algo que brilha.

Com meu braço direito, aquilo que ainda me resta, torço seu pulso esquerdo e o jogo para a minha direita. Ágil como eu nunca fora, subo em suas costas e jogo meu peso contra seu ombro, puxando o braço da fera para trás.

O som de osso estalando é acompanhado pelo seu urro.

Glorioso.

"Agora estamos quites, filho da puta"

A fera se contorce e se levanta, enfurecida. Noto o facão sujo aos meus pés.

No tempo exato em que o pego, ela se lança sobre mim, e eu encaixo, com uma precisão inexplicável, a lâmina perfeitamente em seu diafragma.

Seu grito de dor surra meus ouvidos, o sangue respinga em meu rosto. Um sorriso cruza meus lábios. 

De repente, eu parecia ter nascido para aquilo.

Para a batalha.

A fera finalmente silencia. Com dificuldade, jogo seu corpo para o lado.

Ouço gritos lá fora. O vento, forte, começa a destelhar o mercado.

Olho para o turbilhão se aproximando. Fecho os olhos. Ele me encontra.


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7h da manhã. O despertador toca. Acordo com uma sensação inexplicável.

Tudo fora um sonho.

Não fora ?

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AD INFINITUMN





















sábado, 25 de março de 2017

Morphilia Pt 2




Acordei em uma cama de hotel.

Meu ombro estava enfaixado e eu não sabia como tinha parado ali.

Era um andar alto, e não tão longe da praia, pude notar pela vista. Havia uma escrivaninha aonde o meu notebook e minhas coisas repousavam.

Quando andava, minha cabeça ainda zumbia. O céu agora estava completamente fechado, ao contrário do cenário paradisíaco de antes.

Liguei a televisão e uma moça do tempo nervosa falava rápido, mas deu para entender a legenda e as imagens interativas.

"Furacão Hernandez atinge nível 5 ao se aproximar da Costa Rica".

Aparentemente, a tempestade que havia nos atingido era o cartão de visitas do gigante. Sempre ouvi que nesses casos as pessoas são retiradas da costa e as estruturas reforçadas, mas não havia nada nas janelas.

O prédio, por outro lado, parecia novo, e ficava ao lado de outros três edifícios de uns vinte andares similares.

Decidi que era melhor avisar a família que estava tudo bem. Em todo o caso, se as janelas quebrassem, eu me abrigaria no corredor ou para as escadas de emergência.

O celular estava sem sinal, e o telefone da recepção não era atendido por ninguém.

Resolvi descer. Os elevadores estavam desligados. Entrei pela porta da escada de emergência.

Algumas luzes apagadas, outras acessas. Desci com cuidado, porque tinha a exata noção de que um tombo naquelas condições me traria complicações pesadas.

Me sentia um idoso com osteoporose largado á própria sorte.

Quando estava chegando no terceiro andar, uma luz piscava intermitente. Um dos degraus estava rachado.

"Mas que merda!"

Ouço vozes vindo. Resolvo esperar.

Silêncio. Um minuto. Dois minutos. Cinco minutos.

Nada.

Quando finalmente vou arriscar um pulo sobre o degrau ferrado, a porta se abre com tudo.

BLAM !

Uma moça morena e com olhar cansado foca em mim. Aponto para meu celular e tento soltar o melhor espanhol que tenho, o que não é muito além de "Hola, Chica!" :

"su teléfono móvil está funcionando?"

Ela olha pro aparelho, olha pra mim. Silêncio de novo.

Talvez ela não tenha me entendido.

Vou falar novamente, e então ela simplesmente vira as costas e desce com pressa pelas escadas.

"Latinos são calorosos". Sempre ouço. Vão se foder.

Pulo o degrau e quando aterrisso, meu ombro dá uma pontada lancinante. Retomo o ar, espero a dor passar e continuo a descida.

Quando finalmente chego na recepção, não há ninguém lá também.

As portas do hotel estão trancadas com tábuas. Os computadores desligados. Pego o telefone para efetuar ligação. Nada.

Pela fresta de uma das portas, vejo as palmeiras da rua sendo surradas pelo vento forte.

O furacão provavelmente estava chegando. E eu tinha parado num hotel abandonado ás pressas. Bem na rota de passeio dele.

Hernandéz vinha ás compras. E eu estava nas gôndolas em destaque.

Então me dá um click. Havia luz no saguão. Então deveria haver no quarto. Quem sabe houvesse internet. Como não tinha pensado nisso, porra ?! Olho o celular. Nada de wi-fi. E a bateria já reclamava o final.

A dor na cabeça e o galo parecem responder com exatidão. Subo as escadas esbaforido. Entro no quarto. Procuro um cabo de rede. Por todas as paredes. Nada.

Olho o celular novamente e...uma rede aparece.

"Hilton Network Guests"

Conecto nela. Ela falha no começo, mas finalmente pega. Mas nada de whatsapp. Ou facebook. Ou email. Apenas o maldito Skype pegava.

Tento conectar. Não lembro a senha. Espera. Lembro sim. Coloco e entro. Minha família não usa o aplicativo, mas um grande amigo está online.

"McCoy - Online".

Puta que pariu ! Obrigado, porra !

Aciono a ligação por dados.

"Hey, mano ! Beleza ? Preciso de um favor..."

"Opa, e aí ! Cara, antes de qualquer coisa, você não sabe aonde estou, vim em um programa de auditório como convidado na platéia, vieram trazer um mágico que está arrastando multidões e..."

"Não, não, show, mas eu tenho algo urgente pra te falar."

"Claro que tem. Você ligou pra dizer que estará trazendo charutos e rum pra dividirmos na volta"

"Não...precis..."

"NÃO ?"

"Porra, é sério. Presta atenção. Avisa a minha família que estou bem mas tô no meio de uma tempestade e posso ficar incomunicável por uns dias"

"Ah, só isso ?! Vamos falar dos charutos. E do rum. E se tiver umas morenas..."

"Não, cara, depois a gente negocia isso."

"Ok. Agora faz o seguinte. Liga na sua tv cucaracha, não sei em que maldito canal passa aí, e veja o que esse cara faz."

"Tá certo, McCoy"

"É sério, mano ! Esse cara é de outro mundo"

"Vou ligar. Promessa de brother."

"Fechou. Teu mano tá te esperando ! E se ver alguém charmoso na platéia, sou eu"

"Vá se foder. Até mais, mano. Espere pelos charutos."

Encerro a ligação. O visor aponta 9%. Decido desligar o celular. E ligar a TV.

Acho o canal brasileiro no número 536. A chamada era o mais sensacionalista possível :

"Milagreiro arrasta multidões no Brasil. Santo ou farsa do entretenimento ?"

Um homem com longa capa e trejeitos pomposos atraía garrafas e espadas supostamente com a força do pensamento. A platéia aplaudia entusiasmada.

"Que porra McCoy, qual a próxima atração de outro mundo, a mulher barbuda ?"

O número se encerra. O apresentador anuncia comerciais no mesmo momento em que ouço uma discussão vindo de algum quarto. Um casal. O homem parece nervoso, a mulher muito mais.

O programa volta e agora a imagem da TV está com ruídos. O vento lá fora mais forte. E a discussão no quarto vizinho parecia não terminar.

O apresentador provoca o mágico. Diz que não viu nada excepcional. O mágico replica. Diz que mostrará algo nunca visto antes.

"Irá tirar um político honesto da cartola", penso eu.

Então a câmera foca nele. No rosto. E lá estão eles. Os mesmos olhos. Cintilando. Ferozes. E parecem olhar diretamente pra mim.

"Tragam o corpo", ele diz  com uma voz calma e confiante.

Um caixão aberto entra no palco e a platéia reage atônita. O apresentador parece congelado.

"Esse...esse é o corpo da atriz Maria Ângela, não ?"

"Sim. A morte desta moça chocou o Brasil esta semana, mas eu estou aqui para provar algo que vocês hão de testemunhar para a história".

Em um vestido branco, ela estava com uma feição plácida. A mãe entrara ao lado. Parecia acabada em tristeza, mas quando olhava pro mágico, transmitia esperança.

"Dizem que a morte é o fim...mas eu vos digo, povo de pouca fé, que ela é apenas o começo..."

Não podia acreditar naquilo. Definitivamente a TV havia atingido o ápice do sensacionalismo. Brincar com pessoas mortas de corpo presente era mesmo algo que nunca havia testemunhado.

"...e eu vos peço...que todos fiquem em pé e digam que acreditam que essa moça irá voltar."

Nem mesmo o apresentador parece acreditar. Olha perdido para a plateia, que aos poucos se levanta e murmura baixo.

"Com mais força, plateia !"

"Eu acredito !"

"Mais alto !"

"Eu acredito !"

Eu não acreditava. Mas havia algo fora do comum na voz do mágico. Uma tensão. Uma certeza. E aquele maldito olhar.

Então pude notar. Meu coração estava disparado. De repente, a possibilidade parecia real.

"GRITEM PARA MIM : EU ACREDITO !"

"EU ACREDITO !"

E então aconteceu. Maria Ângela, a namoradinha do Brasil, morta tão jovem de infarto, levantou de seu caixão.

Houve um silêncio ensurdecedor. O apresentador travado. Os convidados. A platéia. A mãe. Tudo completamente paralisado pelo que acabara de acontecer. Menos o mágico.

"Viva, Maria."

Ela se virou com dificuldade para onde as câmeras estavam. Seus olhos opacos e brancos. Os músculos duros pelo rigor mortis. Um instante de tensão á explodir.

E então uma explosão sonora. BANG !

Um tiro no quarto do meu lado. O casal emudecera.

"PUTA QUE O PARIU !". E então a TV apagou. O vento lá fora apertava e o prédio começou á balançar.

O chão tremeu e um barulho monstruoso de ferro e concreto retorcido invadiu o prédio. A torre do lado começara á cair.

As janelas se quebraram e eu tentei correr pro corredor. O vento me tragou pra fora. O vento me tragou pra longe da minha vida. O vento me jogou em meio ao caos. No Brasil, alguém vivia novamente, e eu estava ali, morrendo.

No último relance, antes de entrar no turbilhão, apaguei.



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Continua.
















sexta-feira, 24 de março de 2017

Morphilia Pt 1




Sentei na beira do cais e observei o mar cristalino que se perdia no horizonte.

Havia um navio antigo de madeira, e ele era parte de uma atração turística naquela região do Caribe.

O ticket de entrada estava em minhas mãos. O sol torrava nossas peles, a brisa com cheiro de peixe, sal e o que mais houvesse naquele oceano era incessante. 

Não demorou muito tempo para o capitão aparecer e convidar todos á bordo. Assim como eu, haviam outros turistas de todas as partes do mundo que fariam parte do passeio. As peles alvas e os olhos claros dos europeus, os sorrisos excitados dos viajantes.

"Um incrível navio pirata do século XVII, venha passear pelas micro-ilhas mais bonitas do mundo!" dizia o estandarte na entrada do porto naquele dia.

Quando entrei, notei como o casco rangia sob meus pés e a madeira apresentava sinais intensos de desgaste. Haviam lascas soltas em várias partes e em outras a madeira era queimada. 

Não nos deixaram descer pra galeria abaixo de nós. Ficaríamos apenas no convés. Uma corda isolava aonde não poderíamos ir.

Achei estranho.

Quando o velho brigue se desprendeu da marina e iniciou navegação, houveram assobios e gritos de exaltação. Sorri, embora meio nervoso.

Um casal de ingleses acenou para mim e pediu para eu tirar uma foto. Quando devolvi o celular, me deram um saquinho com folhas secas.

"É natural daqui, ajuda muito á combater os efeitos do alto mar", me disseram em inglês.

Agradeci, mas guardei rapidamente no bolso. Haviam chineses, também. Com seus chapéus de pescadores e os coletes recheados de gadgets. Tirando foto até da merda das gaivotas que vez ou outra caia sobre alguma parte da embarcação.

Imaginei a apresentação para os parentes e amigos em Xangai.

"Hey, olhem, essa é uma merda de gaivota". E os parentes olhariam maravilhados.

Bem...talvez não.

Todos ali se sentiam Jack Sparrow. Menos eu. Não era afeito á mares e rios, e já me perguntava porque tinha topado a aventura.

Sentei encostado em um barril cheio de sabe-se lá o que. Olhei para a grade de madeira cercada á poucos metros de mim, que protegia o andar inferior. O andar proibido. 

No começo, aquela grade era apenas uma imagem na qual eu me fixava pra esquecer o movimento enjoativo do barco e a tensão do alto mar.

Mas então fui ficando curioso, e com a velha companheira Canon, decidi me aproximar como quem não quer nada quando percebi que toda a tripulação e os turistas estavam entretidos tirando fotos na proa.

Me agachei para passar sob a corda e me apoiei sobre a abertura para visualizar melhor o escuro interior.

O chão tinha um misto de palha e algo viscoso. O cheiro não era bom. Lembrava as carcaças de porcos sendo queimadas no matadouro perto da faculdade. 

Nunca poderia me esquecer daquele cheiro. Era essência de inferno. Impregnava até na mente.

Então algo definitivamente me tirou a paz.

Haviam correntes lá embaixo, presas á grossos ferrolhos nas paredes. Marcas de unhas decoravam elas. Sangue seco adornava uma parte específica do chão. E então uma batida oca vinda lá do fundo aonde eu não podia ver.

Toc...toc...toc. A batida começou no fundo e vinha se aproximando, passo á passo.

O navio chacoalhou mais forte. O céu já não estava tão claro. Uma chuva parecia querer se formar.

Toc...toc.

As batidas foram ficando mais difíceis de se ouvir conforme o vento passou á assobiar mais forte e o saculejo já era mais constante. Já não conseguia ficar agachado, tive que me sentar.

Olhei tenso para a proa. Os turistas colocavam coletes. A tripulação agora parecia dedicada á recolher velas e mudar o rumo da viagem.

Voltei a atenção pra porta do subsolo.

Foi então que senti aquilo bater com tudo no chão sob os meus pés.

TOC!

Me levantei sobressaltado com um grito.

- CACETE !

Um dos marujos ouviu meu grito e me viu na área proibida. Gritou, em ótimo espanhol pra mim :

- La galería no és acessible ! CAPITÁN !!!!

E foi então que o Capitão desceu de sua cabine, claudicando sobre uma perna menor do que a outra. 

Ele não tinha mais o semblante gentil que nos convidou para aquela viagem, mas sim uma cara vermelha e raivosa. Os turistas me encaravam com olhos julgadores, embora parecessem mais preocupados com o céu se tornando negro como a noite.

- Dijo que no podría estar aquí!

Antes que eu pudesse pedir desculpas e me explicar, o navio subitamente começou á inclinar de lado. Rolei e bati com o ombro com força em um banco. Senti a dor atravessar como faca e um ardor insuportável escorrer pelos músculos do braço.

Olhei pra cima e vi uma onda grande se formando. Uma tempestade abissal se formava próxima a nós.

O sentimento de morte me tomou e eu só conseguia pensar nas despedidas que não havia feito e nos meus arrependimentos agora tão urgentes.

Olhei para o andar debaixo uma última vez. Vi olhos me encarando, brilhando. Olhos que transmitiam uma força e uma bestialidade que eu não sabia ignorar.

A voz de lá dentro susurrou :

- Eu posso ver o que há em você. Posso cheirar. Eu sinto o seu medo. Sei o que você é.

Outra inclinação brusca.

Bati minha cabeça com força. Apaguei.


-------------------------------------------------

(Continua)






sábado, 31 de dezembro de 2016

Memento Mori





Esse pode ser meu último texto nessa vida.

Pode ser sua última leitura. A última vez em que, através de uma rede social ou não, eu e você teremos destinos cruzados. Nunca mais haverá Diego pra você, nem você para mim.

Certa vez, li uma expressão em latim que continha um poder tão grande que nunca mais a esqueci : Memento Mori. Ou, em tradução literal, lembre-se da morte. Lembre-se que és mortal.

A maioria de nós lida com a morte como o que poderia ocorrer de pior conosco. Temos tabu, temos alergia ao assunto. Ensinamos nossas crianças e adultos á evitar o tema. Olhamos com cara de reprovação pra quem fala abertamente sobre. "Meu Deus, vira essa boca pra lá !"

Não compreendemos que, é exatamente o fato de que nós e as pessoas que amamos estão suscetíveis ao fim da viagem aqui, á partir de qualquer segundo, que torna a nossa história aqui tão valiosa e especial. Que tudo é singular por esse motivo, e ignorá-lo faz com que valorizemos o que não tem valor.

É a mortalidade, a vulnerabilidade, quando devidamente assimilada, que nos liberta das nossas preocupações infantis e nossos medos fúteis. Que faz tanta coisa "boba" se tornar tão cara aos nossos sentimentos, e tanta coisa pesada se tornar um fardo bem mais leve de carregar.

Então, pare de dizer "acaba logo, 2016 !", ou "espero que 2017 seja melhor". Pare de condenar o passado ou sobrecarregar o futuro com suas expectativas. Seus pais, seus avós, seus antepassados passaram por tempos bem mais duros que os atuais. E eles seguiram em frente.

Não existe ano, mês ou dia ruim. Existem tempos difíceis. Porque nada do que nos ocorre, diretamente ou não, é castigo, mas ensinamento. Não trate a vida como um peso, uma obrigação. Ela é um direito, uma chance que você está tendo. E você pode fazer bem melhor do que menosprezar o que você tem de melhor, aqui ou na sua roda de parentes na festa de hoje á noite.

Hoje, quando á meia noite bater e os fogos estourarem, olhe para cada pessoa que for abraçar como se fosse a última vez. Porque pode ser. Ame sua finitude. Ame quem passou por sua vida nesse ano. Ame todo o caos e toda a sua pequenez diante do desconhecido e do universo. Ame cada detalhe do seu caminho diário, ame cada traço do por do sol, cada música que tocar no seu rádio. Ame os segundos finais de 2016, a contagem regressiva, o coração acelerando antes do primeiro segundo do novo ano.

Pode ser a última vez. Repita isso até você sair do seu conforto tóxico. A última vez.

A condenação pra quem vive longe da verdade, por mais dura que ela seja, é uma vida sem valor, sem conexão com quem você realmente é. Uma vida de mentira.

A pílula azul da Matrix que nos relega ao papel de coadjuvantes em nossa própria caminhada.

Depois, amigo, não adianta culpar o ano.

Feliz 2017 pra todos vocês!













sábado, 3 de dezembro de 2016

Manicheistic




Eu lembro da noite de segunda pra terça.

Caiu uma chuva torrencial sobre a cidade, e o barulho da água surrando o telhado me acordou. Eram duas da manhã, e eu estava com uma sensação de alerta no peito.

Ignorei, porque sempre fico assim durante tempestades. Me trazem a sensação de destruição, beleza e caos, mas da destruição pela necessidade de destruir, de repor a ordem atual, de evoluir.

Deitei na cama e fiquei observando o teto que se iluminava á cada lampejo. Senti o vento que vinha pelas frestas da janela. Desejei que permanecesse tudo bem. Dormi.

Não sabia que ao acordar quatro horas depois, eu descobriria ao abrir os olhos que enquanto eu refletia na minha cama, um avião caia e levava consigo a vida de dezenas de pessoas. Pessoas que eu havia visto a pouquíssimos metros de mim com atenção durante duas horas seguidas no domingo.

Ainda lembrava nitidamente do volante careca passando correndo e dando trabalho pra defesa do meu time. Da vontade com que jogavam mesmo sendo um jogo que não valia nada pra eles. De como nossa torcida aplaudiu eles também, pois representariam nosso país em alguns dias.

Não dava pra esquecer. Naquela tarde, nós fomos campeões após 22 anos esperando aquele título. 22 anos que vivi de forma muito intensa, principalmente nas horas mais difíceis. E agora, os rapazes que nos foram um adversário final de se orgulhar, partiram de forma trágica.

O que se seguiu foi que a minha alegria pelo título se escondeu em algum lugar da alma. E um luto se abateu sobre várias pessoas. Eu esperava isso, até. Brasileiro respira futebol, e quedas de avião sempre chocam. Meus círculos sociais diários não deixam por menos.

O que eu não esperava é o que viria á se seguir.

Todos nós temos uma tendência á dividir esse mundo entre bem e mal. A questão é que nossa realidade não permite. São poucas as pessoas e situações que efetivamente são completamente boas ou ruins. Tudo tem dois lados. Todos temos defeitos e atos questionáveis.

Ter uma visão rígida e idealista de justiça e bondade apenas fez com que eu me tornasse um homem quebrado, amargo e negativo em relação á vida e ás pessoas. Sorrir num mundo aonde as piores barbaridades aconteciam o tempo todo era algo impensável pra mim. Me sentia hipócrita, sádico.

Foi só a sabedoria que o tempo, a experiência e as porradas que levamos trazem, que me fez mudar. Entendi que nossa existência é algo muito complexo e que nosso planeta é isso mesmo, um lugar recheado de gente torta (e eu me incluo nisso) que em um momento será boa, no seguinte não. Que uma hora pode ser muito gentil contigo, e no outro pisar gratuitamente no seu calo. Que é muito (muito) mais fácil alguém virar a cara pra ti pelo motivo mais torpe, mas é muito melhor conquistar um irmão (ainda que seja tão difícil).

Se tu levar á ferro e fogo, irá enlouquecer. Não á escolha sobre lidar com isso : ou tu curva quando o vento apertar, ou tu irá rachar no meio. "Be like water, my friend". Palavras do Bruce Lee.

E fico pensando mais ainda nisso nesses tempos de comoção geral. Achei tão inesperado e incrível a atitude dos paisas de Medelín. Um povo que entende bem esta questão da justiça questionável (afinal, viveram vários anos abandonados pelo poder público e dependentes dos seguidos atos de boa vontade de um homem bilionário que ao mesmo tempo era um traficante e genocida impiedoso). E que não teve pudores em lotar as ruas e um estádio em um ato puro e espontâneo de solidariedade.

Aquelas pessoas não tinham nada á ganhar. Simplesmente foram por empatia. Por entender a dor e por querer que nós, brasileiros, de alguma forma sentíssemos conforto emocional nessa hora.

Ou como a mãe do goleiro Danilo, que era a pessoa pra estar mais na fossa e revoltada, e estava por aí, confortando repórteres que caíam no choro ao vivo. Sendo a mãe de muita gente que nunca havia visto.

Por essas e outras, eu larguei mão de estabelecer julgamentos eternos sobre qualquer um. Ou de viver uma política de tolerância zero.

Dizem que Deus escreve por linhas tortas, e é nesses garranchos como o que foi escrito nessa semana que eu entendo frases como "fora do amor não há salvação".

Se agíssemos como egoístas e seguíssemos como se nada tivesse ocorrido, se não ouvíssemos a dor dessas pessoas, se ao menos não parássemos um minuto pra pensar no impacto disso, então não haveria mesmo esperança pra gente como a gente. Ao agir de forma diferente, quebramos a corrente diária. Nadamos contra a maré. Fomos, ao menos por estes dias, mais humanos e preocupados uns com os outros.

Muitos apostariam que um avião iria cair até o fim do ano. Quase ninguém apostaria que milhões de pessoas seriam tão solidárias.

A humanidade não acredita mais nela mesma, mas esses são tempos aonde nossa razão e expectativa é quebrada da forma mais acachapante possível e então reabrimos, ainda que aos poucos dentro da nossa casca endurecida pela incredulidade, um espaço pra fé.

Fé em nós mesmos. Na capacidade que temos de ser algo melhor e maior. De quebrar as correntes, de ser alguma coisa além desses bichos mortais, de ego sensível e noção frágil de auto realização que temos sido e do que nos tornamos especialistas em ser.

Segue o jogo.


AD INFINITUMN







sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Tormenta



A tempestade fodeu a cidade.

Entre árvores caídas e o mar de folhas que cobriu o concreto na última noite, ficou o trabalho maçante de limpar toda a merda causada pela tempestade de ventos e raios.

As pessoas olham horrorizadas, eu olho maravilhado.

Lembro da manhã, lembro do cheiro de chuva vindo do oeste. Lembro das seis e meia, do sono sendo afastado pela lufada forte de ar marítimo, das nuvens gigantes avançando como o apocalipse sobre todos os prédios, casas e parques.

Lembro de todos os trovões chicoteando o chão, castigando a cidade em um ato final após sete dias e sete noites de calor insuportável.

BAM, BAM, BAM.

Os deuses anunciam a chegada do cataclisma. As pessoas corriam olhando pra cima. Preocupadas em chegar logo no trabalho. Preocupadas com o caos certo.

E eu lá. Admirando. Amando. Desejando.

Toda aquela impetuosidade, aquela força, aquela destruição e criação anunciando sua liberação em nossas vidas.

Como não amar a intempérie ?! Como não amar o caos ?!

E naquela noite, quando tudo passou, eu apenas quis sentar no velho balcão de carvalho do Finnegan's 358, pedir um pint da cerveja mais forte e gelada possível e deixar meus músculos assumirem a derrota do cansaço de uma sexta feira finada.

Ainda lembro dos seus olhos profundos como a noite. O gole é forte e um soco no estômago, mas traz o calor e o prazer que eu sinto em você. Da sua pele alva, da minha mão avançando sobre você, da minha agressividade animal encontrando o devido lugar no seu corpo curvilíneo, feminino, delicado e na sua respiração ofegante pedindo mais.

Por muitos dias e horas, eu sou apenas mais um assalariado na selva de pedra. E lá está meu instinto, minha sombra, meu demônio, meu pecado, minha força da natureza implorando por liberdade. E é isso que você me faz. Á livra, a traz pra fora, me faz trocar o sapato social no piso laminado pela bota chutando a porta de madeira e vivendo verdadeiramente por um instante.

Eu sou a vida desperdiçada de Diego. Mas com você, eu sou a vida que queima, que pulsa, que devasta. E que te invade.

A destruição é tão bela. Destruir a ordem medíocre. Destruir a rotina certa. Destruir as amarras da vida média. Trocar quinze minutos no metrô por quinze minutos fodendo com você. Bebendo por aí. Andando sem rumo. Fazendo o que acha certo e fim. Sem justificativas, apenas certezas e ideais concretizados.

Ser o próprio criador.

Ser a própria tempestade.

Ser a fúria, a paixão, o começo e o fim.

Você me lembra toda a potência que eu deveria ser.

Me liberte.
A tempestade fodeu a cidade.

Entre árvores caídas e o mar de folhas que cobriu o concreto na última noite, ficou o trabalho maçante de limpar toda a merda causada pela tempestade de ventos e raios.

As pessoas olham horrorizadas, eu olho maravilhado.

Lembro da manhã, lembro do cheiro de chuva vindo do oeste. Lembro das seis e meia, do sono sendo afastado pela lufada forte de ar marítimo, das nuvens gigantes avançando como o apocalipse sobre todos os prédios, casas e parques.

Lembro de todos os trovões chicoteando o chão, castigando a cidade em um ato final após sete dias e sete noites de calor insuportável.

BAM, BAM, BAM.

Os deuses anunciam a chegada do cataclisma. As pessoas corriam olhando pra cima. Preocupadas em chegar logo no trabalho. Preocupadas com o caos certo.

E eu lá. Admirando. Amando. Desejando.

Toda aquela impetuosidade, aquela força, aquela destruição e criação anunciando sua liberação em nossas vidas.

Como não amar a intempérie ?! Como não amar o caos ?!

E naquela noite, quando tudo passou, eu apenas quis sentar no velho balcão de carvalho do Finnegan's 358, pedir um pint da cerveja mais forte e gelada possível e deixar meus músculos assumirem a derrota do cansaço de uma sexta feira finada.

Ainda lembro dos seus olhos profundos como a noite. O gole é forte e um soco no estômago, mas traz o calor e o prazer que eu sinto em você. Da sua pele alva, da minha mão avançando sobre você, da minha agressividade animal encontrando o devido lugar no seu corpo curvilíneo, feminino, delicado e na sua respiração ofegante pedindo mais.

Por muitos dias e horas, eu sou apenas mais um assalariado na selva de pedra. E lá está meu instinto, minha sombra, meu demônio, meu pecado, minha força da natureza implorando por liberdade. E é isso que você me faz. Á livra, a traz pra fora, me faz trocar o sapato social no piso laminado pela bota chutando a porta de madeira e vivendo verdadeiramente por um instante.

Eu sou a vida desperdiçada de Diego. Mas com você, eu sou a vida que queima, que pulsa, que devasta. E que te invade.

A destruição é tão bela. Destruir a ordem medíocre. Destruir a rotina certa. Destruir as amarras da vida média. Trocar quinze minutos no metrô por quinze minutos fodendo com você. Bebendo por aí. Andando sem rumo. Fazendo o que acha certo e fim. Sem justificativas, apenas certezas e ideais concretizados.

Ser o próprio criador.

Ser a própria tempestade.

Ser a fúria, a paixão, o começo e o fim.

Você me lembra toda a potência que eu deveria ser.

Me liberte.
A tempestade fodeu a cidade.

Entre árvores caídas e o mar de folhas que cobriu o concreto na última noite, ficou o trabalho maçante de limpar toda a merda causada pela tempestade de ventos e raios.

As pessoas olham horrorizadas, eu olho maravilhado.

Lembro da manhã, lembro do cheiro de chuva vindo do oeste. Lembro das seis e meia, do sono sendo afastado pela lufada forte de ar marítimo, das nuvens gigantes avançando como o apocalipse sobre todos os prédios, casas e parques.

Lembro de todos os trovões chicoteando o chão, castigando a cidade em um ato final após sete dias e sete noites de calor insuportável.

BAM, BAM, BAM.

Os deuses anunciam a chegada do cataclisma. As pessoas corriam olhando pra cima. Preocupadas em chegar logo no trabalho. Preocupadas com o caos certo.

E eu lá. Admirando. Amando. Desejando.

Toda aquela impetuosidade, aquela força, aquela destruição e criação anunciando sua liberação em nossas vidas.

Como não amar a intempérie ?! Como não amar o caos ?!

E naquela noite, quando tudo passou, eu apenas quis sentar no velho balcão de carvalho do Finnegan's 358, pedir um pint da cerveja mais forte e gelada possível e deixar meus músculos assumirem a derrota do cansaço de uma sexta feira finada.

Ainda lembro dos seus olhos profundos como a noite. O gole é forte e um soco no estômago, mas traz o calor e o prazer que eu sinto em você. Da sua pele alva, da minha mão avançando sobre você, da minha agressividade animal encontrando o devido lugar no seu corpo curvilíneo, feminino, delicado e na sua respiração ofegante pedindo mais.

Por muitos dias e horas, eu sou apenas mais um assalariado na selva de pedra. E lá está meu instinto, minha sombra, meu demônio, meu pecado, minha força da natureza implorando por liberdade. E é isso que você me faz. Á livra, a traz pra fora, me faz trocar o sapato social no piso laminado pela bota chutando a porta de madeira e vivendo verdadeiramente por um instante.

Eu sou a vida desperdiçada de Diego. Mas com você, eu sou a vida que queima, que pulsa, que devasta. E que te invade.

A destruição é tão bela. Destruir a ordem medíocre. Destruir a rotina certa. Destruir as amarras da vida média. Trocar quinze minutos no metrô por quinze minutos fodendo com você. Bebendo por aí. Andando sem rumo. Fazendo o que acha certo e fim. Sem justificativas, apenas certezas e ideais concretizados.

Ser o próprio criador.

Ser a própria tempestade.

Ser a fúria, a paixão, o começo e o fim.

Você me lembra toda a potência que eu deveria ser.

Me liberte.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O silêncio que precede o esporro.




Estava andando pela calçada rumo ao supermercado, observando o céu se dividir em quatro cores distintas enquanto o momento do pôr-do-sol se desenrolava.

Não conseguia parar de pensar em todas as coisas que vinham se acumulando como peças mal encaixadas de tetris em sua mente nos últimos tempos.

Ao entrar, foi passando departamento por departamento no piloto automático até achar a sessão das bebidas.

"Aqui no nosso mercado sua lealdade vale ouro", dizia o banner.

Lealdade.

As coisas desarranjaram quando decidira dar um tempo na relação, e a mágoa provocada por isso na ex namorada deu um choque inesperado por dentro.

Ali, talvez, o jogo tenha aumentado de velocidade e dificuldade, ou talvez simplesmente tenha passado á se odiar. Não era difícil entender o nó existencial : o cara que sempre era naturalmente o protetor mais feroz causando danos extensos á quem mais protegia.

Era como o Greenpeace despejando barris cheios de óleo no Ártico e depois postando no Instagram.

Pegou o vinho (Santa Julia, aquela coisa argentina viciante de baixo custo que sem querer ele felizmente provou meses atrás), foi até o caixa e a funcionária sorriu prontamente lhe dando um boa noite.

Aquele, geralmente, era o único momento aonde saia da caixa de ideias : quando seus olhos encontravam o de outra pessoa e ele se via forçado por esta conexão á voltar pro mundo de fora.

Respondeu sorrindo da melhor forma que pôde, o que provavelmente se traduziu num esgar tímido, mais morno do que café com leite largado, e saiu assim que a rápida operação terminou.

E não sabia bem se fora o choque o acordou, ou se era a base que perdera, que lhe fizera acordar para um mundo inteiramente novo de problemas.

Mas agora, bem, ele tinha todas as coisas do planeta á serem resgatadas pulsando como advertências em vermelho vivo na tela. A carreira estagnada, a violência crescente da cidade, o bem estar dos pais, o desleixo com a própria saúde.

Dizem que quando nascemos a dor é horrível, as primeiras respiradas são as que expandem seus pulmões pela primeira vez, o ouvido tenta desesperadamente se adaptar á pressão atmosférica, os olhos são surrados pela ardência da luz, e o frio, o frio desgraçado do lado de fora de onde você esteve acostumado á estar por tanto tempo.

Lá estava ele, expandindo pulmões em uma nova vida.

Vida.

Vida que parecia sempre uma anedota mal contada. Você acha que tem o controle de tudo, que sabe das coisas ao seu redor, que seus planos vão seguir o destino desde que você faça tudo direitinho, como numa receita de família.

"Suflê de Sucesso - Adicione três colheres de acerto na cobertura, pitadas de realidade á desgosto".

Aí vem aquela força invisível que todos vocês adoram dar um nome diferente, e KABLAM, observe como ela passa o rodo em tudo que você achava bem sólido.

Lá pelos nove anos, ele vira todas as coisas e amizades e histórias que o tio conquistara e disse "uau, um dia quero ser como você, tio". E o tio sorrira, e de tempos em tempos sempre contava sobre o sobrinho dele dizendo aquilo. Ele realmente marcara com aquela frase inocente de criança.

KABLAM !

O tempo passou, anos passaram, e agora ele estava maior, já adolescente, trabalhando, estudando muito. O tio diz pra ele e pro pai : "Eu gostaria que você fosse meu filho, tenho muito orgulho de você, Didi".

Dessa vez, o tio que marcara ele.

KABLAM !

O tempo passa mais vários anos, e que porra, você mal percebe mais. É como areia, literalmente, escorrendo pelos dedos, mas você mal a vê, mal a sente, mal tenta segurá-la.

Agora o tio, antes tão alto e forte, está magro, abatido, mas ainda com o mesmo humor de sempre.

Conta as histórias de Santos, sobre os lugares que conheceu por aí, os parentes que ele tinha e não sabia, as gerações que mal sonhava existirem.

KABLAM !

Lá está você, aos vinte e seis, seus olhos coçam na frente do computador, você sente um cansaço ruim nos ombros, e uma sensação incômoda no peito. Não é mais a criança sonhadora, o moleque trabalhador que dá orgulho, o ouvinte atento e interessado. É só você, numa versão desesperadamente desgastada e sobrevivente.

Tudo parece perfeito pra um niilismo auto-flagelante, então o celular vibra, você lê.

KABLAM !

Seu tio faleceu, depois de lutar contra a doença por meses.

KABLAM !

Uma pessoa muito importante se fora e você estava, sei lá, divagando sobre quão ruim seria pegar o trem lotado.

KABLAM !

Ele era especial, você era especial, mas nada mais é especial, nada mais parece sério, é tudo estranho. Aonde você estava, em qual parte da vida tudo pareceu tão denso e difícil e as conexões se desvaneceram assim, para rotinas virarem os senhores que massacraram seus antepassados, parentes e amigos ?

KABLAM !

Se perdera pensando em tudo isso, e quase foi acertado por um carro, embora na faixa de pedestre.

"Que porra, cara, tá dormindo ?"

"Eu tô na faixa, filho da puta"

"Vá se foder ! *mostra o dedo do meio e arranca embora*"

KABLAM !

A vida segue. E ele escreve esse texto, só porque precisa mesmo escrever um registro disso. Porque isso também tem se perdido.

O tempo passa, nossos amores passam, nossos amados passam. Nós passamos.

Mas qual o legado ? O do tio ainda vive em tantas pessoas, como vive nele, sem morrer por nenhum instante.

E ele, viveria em alguém ? Qual a grandeza de viver ? Qual é o ponto de virada da história que começa como best seller e se encaminha para um romance barato e clichê ?


KABLAM !


(Qual vai ser a sua próxima página, cara ?!)




AD INFINITUMN












domingo, 14 de agosto de 2016

Blue Monday



Uma manhã de neblina, um dia útil á mais.

Visto o sobretudo cinza e tomo as duas pílulas vermelho-amarelas de Resfenol antes de sair pela porta de casa.

São oito horas em ponto, os dois vira-latas da rua estão dormindo na minha calçada, aonde o sol bate tímido atravessando as folhas do salgueiro da rua.

No começo, o vira-lata número um, negro e soturno como a noite, latia para qualquer um na rua, inclusive á mim.

"Qual é, chapa, eu moro aqui há mais tempo que você".

Agora, ele apenas levanta a cabeça, me encara estático por três ou quatro segundos e volta á dormir.

De alguma forma, parecem farejar meu coração mole pra raça deles.

Lembro de todos os cães de rua que já me seguiram quando lhes fiz um carinho, e de todas as vezes em que o nó se formou na garganta ao ter que mandar que tomassem o caminho de volta.

Saca aquela frase batida de rede social que diz "quanto mais conheço os humanos, mais amo os animais ?". Está gravada em relevo aqui dentro.

Poderia ser algo pior, eu sei.

"Se sua estrela não brilha não tente apagar a minha". "Sua inveja faz minha fama". "Não add sem scrap".

Fico com os animais. Obrigado.

Da esquina vejo o 462 passar batido. Se você nunca sentiu o pesar de um ônibus meio vazio perdido, você não viveu o suficiente.

Encosto o corpo no banco azul metálico. Um cartaz ao meu lado diz "fazemos amarrações, ligue agora". Amarro meu cansaço doente e encosto por ali.

O 202 vem em seguida, e eu me arrasto degraus acima. Bom dia pro motorista, que não responde.

Teria ele respondido se eu tivesse mandado se foder ?! Que dúvida á ser tirada.

Sento lá no fundo, e quando as rodas do Mercedes de 44 lugares atingem a pista central do viaduto, eu vejo á beira do rio um dos famosos três-prédios-fantasmas da cidade sendo demolidos por uma escavadeira, andar por andar.

Ninguém nunca soube porque aqueles prédios residenciais nunca haviam sido habitados. Três quadrados enormes de vinte andares no centro da cidade, servindo de motim pra todo tipo de lenda urbana.

Algumas pessoas disseram que o terreno era arenoso e os prédios iriam afundar com o tempo com o peso das pessoas vivendo lá dentro. Quando criança, isso me parecia factível.

Pra alguns adultos, ainda é.

Das lendas, minha favorita é aquela que diz que houve uma briga judicial entre os donos dos apartamentos e a construtora, ninguém pôde ocupar o imóvel, que foi ocupado por usuários de crack que dormiam nas estruturas abandonadas.

Á certa altura dos fatos, os cracudos começaram á serem assassinados de forma brutal. Ás vezes eram encontrados despedaçados no subsolo, ás vezes com as tripas esparramadas por diversos andares.

Não sei quem inventou isso, mas é fato que por um tempo houve zombie walkers por ali, e que magicamente eles decidiram que era melhor morar na rua depois de um tempo.

Adoraria colocar isso como atração turística no Trip Advisor. Pena que as políticas não permitem.

Pego o trem, coloco os fones de ouvido que magicamente me isolam das lamentações e intrigas cotidianas.

Gosto de observar. De entender o que cada pessoa ali é, o que está sendo o dia dela.

Há uma solidão, um abatimento no olhar de um ou outro.

É engraçado como você enxerga 50 pessoas no mesmo espaço e nenhuma delas sequer se olha. É como se uma invisibilidade estivesse ali, permitindo a co-existência.

Passamos por uma favela improvisada ao lado dos trilhos. Um cara estava botando fogo numa pilha de papelão e outro esfregava os braços por perto pra se aquecer.

Mês passado um cara morreu de frio durante a madrugada, na entrada de uma estação de metrô perto do trabalho.

Em um pequeno raio de três quilômetros em torno de onde ele morreu sozinho e fodido, vivem cerca de 300 mil pessoas.

Que porra. Mais gente e prédios por metro quadrado do que você provavelmente conseguiria contar em toda a sua vida, e seu último momento é enxergar isso enquanto sua vida se esvai á medida que o frio vai lentamente acabando com você.

Na primeira vez que vi um filme sobre náufragos, minha questão essencial era : como alguém que está no meio do oceano morre de sede ?!

Então, eu entendi um dia que o sal concentrado da água acaba com você e piora os efeitos de forma letal.

(Observem como eu seria o primeiro idiota á morrer).

Talvez as coisas sejam assim por aqui.

Somos todos náufragos boiando por aí em meio uns aos outros, esperando que alguém nos apareça e seja nossa terra firme.

Ás vezes, você está lá, sedento por uma conexão humana real. Ás vezes, é só a sua vida que precisa ser salva de um fim trágico.

E aí estamos nós. Espalhando sal na porra toda. No infinito oceano azul.

É...

AD INFINITUMN






























segunda-feira, 1 de agosto de 2016

27/27







Era uma noite clara e levemente fria, um inverno que parecia pedir desculpas pelo incômodo das jaquetas e blusas que se esbarravam naquele bar.

Eu estava lá, agarrado á uma lata de Baby Daddy IPA, intercalando goles carregados do amargor do lúpulo com algumas conversas esporádicas com os presentes.

Uma rodinha animada aqui, outra ali. "Opa, viu o último álbum do Megadeth ?" - "Vi sim. Curti pra caralho. Tem um brasileiro na banda agora, uhn ?".

Rapidamente me pego mais entretido com as informações da lata do que com o redor. Olho pro meu amigo e lá está ele, feliz com a presença de (quase) todos os queridos, e isso me faz satisfeito.

Houve um tempo no qual eu peguei gosto por conhecer pessoas novas em lugares e oportunidades assim. Cerveja, desconhecidos, conversas animadas sobre qualquer merda.

Por algum motivo, talvez o mesmo motivo que leva pessoas á se viciarem em analgésicos ou preferirem Netflix á cinemas, eu perdi este gosto.

Meu camarada envolve a ficante ruiva num abraço, sorri e tenta beijar ela. Ela tenta se desvencilhar rindo, depois cede. O dono do bar, ótima pessoa, energicamente arruma notas ao lado dos dois.

Uma vez, naquele bar, eu havia esquecido minha mochila após beber além da conta em uma noite como aquela. Havia cerca de 500 reais em objetos de valor dentro dela. Ele a guardou, intocada, e me devolveu assim que abriu o bar no outro dia.

Coisa engraçada, a honestidade. Sempre aguardamos ela como uma obrigação, mas a reconhecemos como a virtude que ninguém realmente botava fé que iria aparecer. Soltamos um "obrigado!" sincero, quase um alívio.

Sintomático. Há algo doente na nossa sociedade. Ou, talvez, haja sociedade na nossa doença.

Mais provável.

Alguém bate no meu ombro. Meu amigo. "Hey cara, tá curtindo ?! Vamos lá fora, vou fumar um charuto !" - "Claro, vamos sim."

Peço para dar uma tragada. Charuto cubano, ele jura. Não sei a diferença entre um charuto cubano e um charuto clandestino feito em Assuncion. Mas acredito.

Dou a tragada, mas "sem puxar para o pulmão", conforme instruções claras, ou ao menos o mais claro que consegui entender depois de dois litros de cerveja forte no organismo.

Surpreso, noto que não odiei. Sempre detestei, e ainda detesto, cigarro. E ali, talvez, eu entendi quando dizem que o problema dos vícios leves é que eles te levam pros mais pesados com o passar dos anos.

Peguem o meu Eu do passado há cinco anos atrás e verão alguém que não bebia cerveja.

É.

Devolvo o charuto. Uma pequena comoção dentro do bar assim que somos chamados pra dentro. Um escritor famoso, que gosto muito, estava ali, bebendo numa confraternização de tempos de escola.

Putresco, o aniversariante-charutador-meu-amigo/irmão-ao-longo-de-17-anos entra em epifania.

André Vianco estava ali, na nossa frente, e numa humildade surpreendente, para pra conversar conosco.

Li todos os livros do Vianco. Na adolescência, me impregnava em suas histórias de vampiros e monstros que eram derrotados por guerreiros destemidos nas ruas da minha cidade. Foi sua literatura que me fez olhar pro meu ninho urbano como mais do que uma simples exportadora de hot dogs e pombas - agora era um mundo á parte, com espaço para o fantástico.

Nunca havia conhecido alguém famoso que eu admirasse. Sempre me perguntava o que faria se visse.

Bem, agora sabia. Ali estava eu tirando fotos para fãs e soltando frases prontas de relações públicas.

"Seus livros são ótimos, cara."

Vianco pra um lado, Putresco pro outro, eu vou dar uma mijada.

Volto, pego outra cerveja, encosto numa mureta de madeira qualquer e encaro as luzes da cidade lá no fundo.

O ar gelado castiga e reforça a cena das chaminés esfumaçando na linha do horizonte, a estrada e suas luzes logo atrás, como um caminho para o infinito e além. Uma bela fotografia mental.

O escritor vai embora. Nos cumprimenta, um a um, mas ao meu amigo, ele dá o abraço mais sincero e pessoal. Acostumei com aquilo. Putresco é o tipo de ser humano que você bate o olho e vê ele despido de qualquer máscara. Tão fodidamente autêntico que as pessoas o amam. E, por sorte, meu melhor amigo - palavras dele, que me deu o primeiro pedaço de bolo no fatídico 27 de Julho de 2005.

Eu, por outro lado, sou um gênero completamente diferente de ser humano. Do tipo que você gostaria de ter por perto, mas não tão perto assim.

Algumas pessoas constroem pontes facilmente, outras erguem muros, e eu...bem, eu construo labirintos nos quais nem eu mesmo me acho. Olho pra eles em toda sua complexidade arquitetada e digo "uau, minha mente é fantástica".

Pena que seja usada para, invariavelmente, me foder.

Saca aquele mago do Caverna do Dragão que tem um chapéu mágico no qual ele consegue tirar qualquer feitiço ou coisa que quiser, mas só tira o que não precisa ou lhe atrapalha ?!

Prazer.

Uma da manhã, o corpo sente o baque do álcool. Sinto que é hora de ir. Chamo um Uber, me despeço do aniversariante realizado, e observo a cidade dormente no caminho.

A cidade que dava cria de escritores famosos á times de futebol americano.

Quem sabe um dia eu possar ser alguma coisa também.



AD INFINITUMN











terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O que a Alemanha me ensinou sobre a empatia - Parte 1




Wanderlust é uma palavra esquisita de dez letras usada para definir algo muito amplo :

O desejo fodido de desbravar novos lugares. De ver algo que nunca viu antes, de ouvir idiomas nunca ouvidos, ver paisagens nunca vistas, de ficar vinte e quatro horas muito, mas muito longe de qualquer zona de conforto.

Após o meu primeiro mochilão (ARG-URU-RJ), a única coisa que eu tinha na cabeça era uma pergunta bem retórica do porquê eu não havia feito aquilo antes.

Dito isso, eu fiz, após longo planejamento, um mochilão de trinta dias pela Europa em Julho de 2015.

Logo quando terminei e voltei á Ilha de Vera Cruz, amigos e entusiastas da empreitada me questionaram sobre detalhes e pediram textos sobre a epopeia solo no Velho Mundo.

Bem, camaradas, a experiência foi profunda e precisou ser absorvida por semanas e mais semanas á fio.

Eu tinha muita coisa na cabeça e na alma, porém, era necessário digerir tudo aquilo. Transformar numa mensagem clara, em algo que fizesse jus ao que vi e vivi, e que pudesse ser legal pras pessoas lerem, que lhes fosse ao menos útil de alguma forma.

Recebi convites para escrever sobre a experiência, como o do Anselmo Mendo, do adorável canal cervejeiro Beercast, e recomendações de gente que manja do traçado da crônica, como o caro jornalista Hiago Leal.

Cheguei á topar a ideia, mas quando sentei na frente da tela, nada saiu. Era preciso tempo pra traduzir e relatar sem omitir qualquer pedaço da experiência.

Dito isso, eu começo pela Alemanha. Não foi meu primeiro país, nem o último. Mas é provavelmente o que estou melhor preparado pra comentar sobre, nesse momento.

Cheguei no aeroporto Schonefeld, no extremo de Berlim, no começo da noite do dia 15 de Julho. Era verão, e nessa época, o sol se põe bem tarde. O aeroporto é conectado á estação de trem, então, precisamente ás 20h, lá estava eu aprendendo á comprar bilhete.

Em Berlim, o transporte funciona por zonas, assim como no Brasil. Aqui, a zona é geral quando chove, quando faz calor, quando falta manutenção e quando cobram 3,80 por um serviço meia boca.

Lá, as zonas nada mais são do que zonas territoriais, sendo que a A é a mais próxima do centro, e a C, a mais distante. Você compra os bilhetes em caixas eletrônicos disponíveis em todas as estações, e eles te dão direito a usar o trem (S-Bahn), metrô (U-Bahn) e o VLT (Tram), uma modalidade de transporte pouco conhecida no BR (usei pela primeira vez aqui no Brasil nesta semana, em 2016, no sistema em testes que está sendo implantado na Baixada Santista), mas muito popular na Europa.

Sobre o transporte, duas coisas. A primeira, é o mais eficiente, limpo e invejável que já usei na vida. Até mesmo aos domingos as opções são abundantes e a qualidade e conforto são inacreditáveis.

A outra coisa, é que bem, nem tudo é perfeito. O mapa é muito, mas muito confuso. E *não tem* informações em inglês. Apenas deutsch. Eu, heavy user do metrô paulista, que já havia usado metrô em não sei quantas cidades, me vi tendo o orgulho tolo cagado logo de cara em território fritz.

Acompanhei toda a leva de turistas espanhóis que estava na plataforma, pois notei pelas conversas ao meu lado que todos tinham o mesmo destino que eu (A estação central Alexanderplatz, aonde eu faria uma baldeação até a Rosenthaler).

O guia do hostel também indicava que aquela era a plataforma correta, então quando o trem veio, eu me dispus confortavelmente numa janela e fiquei observando as casas e árvores lá fora, devorando cada detalhe visual do caminho.

Bem, o que aconteceu é que lá pela quarta estação, os espanhóis saíram com caras de assustados e um deles se exaltou dizendo que haviam se perdido. Não falo espanhol fluente, mas após uns dias em Madrid (e uma experiência hermana no ano anterior), você pega muita coisa.

Percebi que tinha me fodido junto ao acompanhar o rebanho, contrariando os ensinamentos do National Geographic sobre sobrevivência de espécimes em movimentos migratórios.

Bem, Nelson Rodrigues dizia que a unanimidade é burra. Mais Nelson, Menos National.

Me levantei e comecei a procurar no mapa aonde eu estava. Não consegui entender a lógica daquilo que parecia mais uma mandala pintada para pessoas com TOC.

Comecei a observar as estações que se passavam, até que em uma delas, todos do trem resolveram descer. Desci junto, imaginando que fosse uma estação de integração.

Já eram 21 horas, e o meu alerta de que as coisas poderiam se complicar começou á disparar.

Pois bem. Foi aí, meu amigo, que o sauerkratz azedou e a mostarda amargou demais.

Saí andando pela plataforma e após não achar informações, resolvi abordar educadamente uma senhora de meia idade que esperava o trem na mesma plataforma.

- Excuse me, I need a information. Can you help me, please ?!

E a resposta, no maior estilo "corra que a cagada da pomba vem aí e você não tá vendo", foi num inglês claro e muito polido :

- I don't help any fucking foreign people. I won't give you one fucking information. Get out.

O que veio depois, amigos, fica na parte 2.