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Autor


Sobre o autor

27 anos desenvolvidos na velha Osasco e na Paulicéia Desvairada, mas divididos por explorações na América do Sul, Europa e África.

Muito do que vi e senti geraram os contos e reflexões desse blog. Atualmente, estou produzindo um livro, cujos primeiros capítulos você encontra aqui. Sente-se e leia uma história, viajante.

Perfil

Deepak Bhagya

Contato

Diego Palomo

E-mail: slash5000@gmail.com

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Puxe uma cadeira e leia uma história.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O que a Alemanha me ensinou sobre a empatia - Parte 1




Wanderlust é uma palavra esquisita de dez letras usada para definir algo muito amplo :

O desejo fodido de desbravar novos lugares. De ver algo que nunca viu antes, de ouvir idiomas nunca ouvidos, ver paisagens nunca vistas, de ficar vinte e quatro horas muito, mas muito longe de qualquer zona de conforto.

Após o meu primeiro mochilão (ARG-URU-RJ), a única coisa que eu tinha na cabeça era uma pergunta bem retórica do porquê eu não havia feito aquilo antes.

Dito isso, eu fiz, após longo planejamento, um mochilão de trinta dias pela Europa em Julho de 2015.

Logo quando terminei e voltei á Ilha de Vera Cruz, amigos e entusiastas da empreitada me questionaram sobre detalhes e pediram textos sobre a epopeia solo no Velho Mundo.

Bem, camaradas, a experiência foi profunda e precisou ser absorvida por semanas e mais semanas á fio.

Eu tinha muita coisa na cabeça e na alma, porém, era necessário digerir tudo aquilo. Transformar numa mensagem clara, em algo que fizesse jus ao que vi e vivi, e que pudesse ser legal pras pessoas lerem, que lhes fosse ao menos útil de alguma forma.

Recebi convites para escrever sobre a experiência, como o do Anselmo Mendo, do adorável canal cervejeiro Beercast, e recomendações de gente que manja do traçado da crônica, como o caro jornalista Hiago Leal.

Cheguei á topar a ideia, mas quando sentei na frente da tela, nada saiu. Era preciso tempo pra traduzir e relatar sem omitir qualquer pedaço da experiência.

Dito isso, eu começo pela Alemanha. Não foi meu primeiro país, nem o último. Mas é provavelmente o que estou melhor preparado pra comentar sobre, nesse momento.

Cheguei no aeroporto Schonefeld, no extremo de Berlim, no começo da noite do dia 15 de Julho. Era verão, e nessa época, o sol se põe bem tarde. O aeroporto é conectado á estação de trem, então, precisamente ás 20h, lá estava eu aprendendo á comprar bilhete.

Em Berlim, o transporte funciona por zonas, assim como no Brasil. Aqui, a zona é geral quando chove, quando faz calor, quando falta manutenção e quando cobram 3,80 por um serviço meia boca.

Lá, as zonas nada mais são do que zonas territoriais, sendo que a A é a mais próxima do centro, e a C, a mais distante. Você compra os bilhetes em caixas eletrônicos disponíveis em todas as estações, e eles te dão direito a usar o trem (S-Bahn), metrô (U-Bahn) e o VLT (Tram), uma modalidade de transporte pouco conhecida no BR (usei pela primeira vez aqui no Brasil nesta semana, em 2016, no sistema em testes que está sendo implantado na Baixada Santista), mas muito popular na Europa.

Sobre o transporte, duas coisas. A primeira, é o mais eficiente, limpo e invejável que já usei na vida. Até mesmo aos domingos as opções são abundantes e a qualidade e conforto são inacreditáveis.

A outra coisa, é que bem, nem tudo é perfeito. O mapa é muito, mas muito confuso. E *não tem* informações em inglês. Apenas deutsch. Eu, heavy user do metrô paulista, que já havia usado metrô em não sei quantas cidades, me vi tendo o orgulho tolo cagado logo de cara em território fritz.

Acompanhei toda a leva de turistas espanhóis que estava na plataforma, pois notei pelas conversas ao meu lado que todos tinham o mesmo destino que eu (A estação central Alexanderplatz, aonde eu faria uma baldeação até a Rosenthaler).

O guia do hostel também indicava que aquela era a plataforma correta, então quando o trem veio, eu me dispus confortavelmente numa janela e fiquei observando as casas e árvores lá fora, devorando cada detalhe visual do caminho.

Bem, o que aconteceu é que lá pela quarta estação, os espanhóis saíram com caras de assustados e um deles se exaltou dizendo que haviam se perdido. Não falo espanhol fluente, mas após uns dias em Madrid (e uma experiência hermana no ano anterior), você pega muita coisa.

Percebi que tinha me fodido junto ao acompanhar o rebanho, contrariando os ensinamentos do National Geographic sobre sobrevivência de espécimes em movimentos migratórios.

Bem, Nelson Rodrigues dizia que a unanimidade é burra. Mais Nelson, Menos National.

Me levantei e comecei a procurar no mapa aonde eu estava. Não consegui entender a lógica daquilo que parecia mais uma mandala pintada para pessoas com TOC.

Comecei a observar as estações que se passavam, até que em uma delas, todos do trem resolveram descer. Desci junto, imaginando que fosse uma estação de integração.

Já eram 21 horas, e o meu alerta de que as coisas poderiam se complicar começou á disparar.

Pois bem. Foi aí, meu amigo, que o sauerkratz azedou e a mostarda amargou demais.

Saí andando pela plataforma e após não achar informações, resolvi abordar educadamente uma senhora de meia idade que esperava o trem na mesma plataforma.

- Excuse me, I need a information. Can you help me, please ?!

E a resposta, no maior estilo "corra que a cagada da pomba vem aí e você não tá vendo", foi num inglês claro e muito polido :

- I don't help any fucking foreign people. I won't give you one fucking information. Get out.

O que veio depois, amigos, fica na parte 2.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Guerra




Boa noite.

No alvorecer deste novo dia, nossa consciência foi atacada de forma brutal e traiçoeira pelas forças advindas de fora da nossa zona de conforto.

Nossas defesas, pegas de surpresa e acostumadas com a paz silenciosa e forçada, foram derrotadas sem esforço, e aquilo que sobrou dela, recuou rapidamente para o interior de nosso esquecimento.

Este é o momento, em que, impelidos pela nunca antes tão clara possibilidade da invasão, nossos clamores mais íntimos pedem por uma vitória rápida e definitiva de nosso ser.

Estou aqui para lhes liderar á esta vitória. Mas não sem antes lhe proferir as palavras necessárias, pois sua participação será fundamental na defesa de nossa causa.

Não irei lhes prometer soluções fáceis. Não venderei planos inexequíveis. Não alimentarei vossas esperanças em vão.

Nós precisamos lutar. E nós lutaremos.

Defenderemos nossa alma, nossos sonhos, nossa capacidade de viver, e de acreditar na vida.

Iremos batalhar nas ruas de nossas cidades, nas fronteiras do nosso mundo, nas trincheiras dos mais disputados territórios.

Lutaremos nos lugares que nos são mais valiosos, e lutaremos nos lugares mais odiados. Do mais belo lugar ao sol á mais tenebrosa e limitada mesa de expediente.

Lutaremos !

Por nosso orgulho. Por nossa vontade de estar vivo. Por um último brilho no olhar. Por estar aqui além do estar. Por respeito á nossos antepassados. Pelo valor de nossa chance.

Por não aceitar a vitória do que destrói, humilha e assim se satisfaz. Por não permitir que a soberba, a ignorância, a futilidade, a tolice, a maldade gratuita, o derrotismo, sejam nossos detratores.

Não seremos conquistados. Não nos verão de joelhos. Não escreverão sua sombria glória sobre nosso choro entregue.

Resistiremos !

Ao ataque travestido de rotina. Ao assalto potente do egoísmo.Ao avanço voraz daquele que nos deseja caídos. Ao pensamento ameaçador de que merecemos o sofrimento da aniquilação lenta e certeira.

Aos que sofrem. Aos que se desesperam. Aos que se angustiam, e já não encontram mais a resposta que procuram.

Estou aqui. Estamos aqui. E continuaremos á estar.

Esta não é nada mais do que uma página sombria no vasto livro da existência que temos escrito pela eternidade.

Pela força inesgotável de nossa fé, pela determinação inigualável de nosso corações, pela total e irredutível dedicação de nossa mente, alma e corpo :

VENCEREMOS !







quinta-feira, 21 de maio de 2015

Testemunhem.



É...

Engraçado.

Essa semana fiz um comentário apaixonado em uma matéria sobre viajar sozinho, em um grande portal masculino, acessado por todos os públicos.

Meu comentário foi alçado ao topo pelo número de aprovações de outros leitores, mas á despeito dessa forma passageira de aprovação, o que me deixou feliz foram as respostas.

Foram quatro, inclusive da autora, elogiando e dois deles agradecendo imensamente pela injeção de ânimo e convencimento que eu lhes dei para viajar sozinhos. Estavam receosos, em meio ao desconhecido do além do horizonte, perdidos nos problemas do dia-a-dia.

Um comentário, e lá estava eu mudando o dia (e o passaporte) de alguém.

Essa não fora a primeira vez.

Já havia logrado outras vezes o topo da cadeia de comentários, embora nunca fosse o objetivo - só queria expor o que pensava. Logicamente, ter pessoas curtindo e dando respostas do tipo "uau ! comentário tão bom quanto o texto !" ou "genial ! visão genial !" me faziam sentir bem.

Mas não era por isso. Era por ter, por um instante, a chance de extrair aquele ouro, aquela faceta que eu só conseguia mostrar em raros momentos.

O que nunca mudou, além de minhas palavras aparentemente bem colocadas ("Você tem lábia" é uma frase que tenho ouvido frequentemente em vários contextos), é a dicotomia entre texto e vida.

Uma vez uma amiga me disse que eu deveria viver conforme eu mesmo. Pois as coisas que eu pensava e escrevia eram intensas e incríveis, mas meus atos se mostravam pequenos e guardados dentro de um mundo frágil.

O que pode soar grosseiro era um conselho dado em uma das minhas fases de cabeça baixa. 

Ás vezes, a gente precisa de um abraço.

E ás vezes, a gente precisa de água fria na cara. 

O agradecimento efusivo de um gesto despretensioso fez soar em mim a pequena fagulha de sentido, do que restou da grande fogueira de idealismo e vida que já houve um dia.

Sim, pois esse que lhes escreve tem levado uma vida de pouco valor, fato que já não se faz recente.

Uma vez, li com espanto que Hemingway, o famoso escritor ianque, havia levado uma vida de bosta. Ferido na guerra, abandonado pelo grande amor, caindo no alcoolismo em Paris...e esse padrão se repetiu por outras grandes personalidades que fui estudando (Sem deixar de admirar).

De físicos como Kepler á músicos como Kurt Cobain, há sempre presente o sinal de uma história de vida cujo volume de realizações íntimas destoa em níveis estratosféricos de suas realizações públicas.

É uma espécie de maldição, um toque de Midas, o rei que tornava ouro tudo aquilo que tocava. 

Imagine revolucionar o mundo das leis da física moderna ou entrar para a história do Rock, ao mesmo passo em que sua mulher e filhos adoecem ou você entrou em um vício fatal em heroína para tentar curar uma dor incurável.

Obviamente, eu não estou em registro algum além do livro escolar (e talvez do campeonato de SuperNintendo de 2001, 3º lugar).

Mas eu SEI que meus lampejos de pequena e temporária genialidade em certos posicionamentos ou ímpetos não vem do espaço vazio e infinito.

Vem do que eu sou, de algo que eu preciso lapidar, e que me tornaria alguém que o mundo tem precisado cada vez mais. Alguém que poderia ser algo mais. Não um número. Um nome.

O velho Quaterback, o camisa 10, a pessoa que enxerga o que outros não enxergam e movimenta o jogo de forma á alcançar o que precisa ser alcançado.

Alguém que não é mais especial do que ninguém. Que é importante como todos os outros do time, em posições diferentes.

Mas que pode, em um determinado instante da trajetória do tempo e espaço, executar o lance que decide tudo.

E o que ocorre á cada dia, a cada tic tac, é que sei que essa capacidade está adormecendo pra nunca mais acordar nessa vida.

Há cinco anos atrás, eu falava em salvar o mundo, trabalhar voluntariamente, escrever livros e invocar mudanças profundas na sociedade.

Hoje, eu apenas torço pra chegar até o final do dia sem ter vontade de enfiar a cabeça na parede.

É muito provável que eu tenha alimentado uma zona de conforto grande o suficiente pra esconder eu de mim mesmo.

É real, que nunca deixei de lutar. Que 2014 foi o melhor ano da minha vida porque eu fiz ele ser, que não tenho deixado planos de lado, que ainda me faço (tento) ser mais do que o instinto básico de comer, beber, meter, dormir, brigar, dominar.

Mas também é real que a gravidade tem ficado á cada dia mais pesada. Que a fantasia de cidadão médio que trabalha, estuda e dorme que vesti tem se tornado minha pele. Que eu gastei 25 anos de vida útil sendo um rascunho daquilo que poderia e não uma arte daquilo que é. 

Li sobre a notícia de imigrantes em barcos que ninguém queria aceitar. Li sobre como eles se mataram e comeram uns aos outros para sobreviver. Vi sobre crianças queimadas vivas por grupos extremistas, vi pessoas se matando pra entrar no trem (essa eu vi bem de perto), vi gente jogando lixo na rua e dando risada, e vi gente destruindo o país enquanto ninguém parecia notar nada além do cardápio do dia.

E, num pequeno momento escondido, chorei de soluçar.

Não porque estou surpreso. Ou chocado. Ou decepcionado.

Já estive, não tenho estado há muitos anos.

Mas por saber que esse é o mundo que vivo, essa é a minha raça, e sei que em menor escala ou atividade, eu também sou um animal assim. Que eu poderia ser uma daquelas pessoas que abrem mão da porra toda pra ajudar refugiados na África ou pegar em armas para defender sua terra, que meu coração adoraria isso, mas que eu ainda me forço á gastar quatro horas diárias no trajeto repetitivo, oito horas ouvindo piada desnecessária e não produzindo nada grande sentado numa cadeira, entupindo minhas artérias de açúcar e contando quantas horas faltam pro fim do expediente, e depois pra chegar em casa, e depois pra dormir, e depois pra tudo de novo, e depois pra saber quando isso deixa de ser isso.

Que o stress já me faz preferir uma cara amarrada á um sorriso gentil. Que deixei de ver meus semelhantes como semelhantes, mas como concorrentes, estorvos, coisas que se movem e atrapalham. Que eu bebi da fonte comum da ignorância e o veneno da rotina acabou com a minha capacidade de ver algo além do meu ego. Que amanhã é outro dia, mas não serão outros seres humanos.

Eu choro, porque se minha criança sonhadora ou adolescente revoltado visse o adulto que virei, provavelmente odiariam a si mesmos. 

Porque se apaixonariam pelo que escrevo, mas cuspiriam no que faço.

Porque a vida não é escrita pelos que o fazem bem, mas pelos que vencem. 

Por trás de toda pose feroz e genuína racionalidade argumentativa, há apenas um pedido ecoando em meio á histeria.

Perdão. Eu falhei.

E não sei quando nós vamos parar de falhar.




segunda-feira, 16 de março de 2015

É uma partida de futebol.




Dia desses, em meio á uma das chuvas torrenciais paulistas, daquelas que você agradece até enchente na esperança de encher as represas, tiveram uma ideia genial lá na repartição.

Agora que todos estavam instalados na maldita zona leste da cidade, deveríamos marcar um futebol em alguma quadra perto.

Como quem não quer nada, topei.

Sempre fui tarado por futebol. Sei a escalação do Palmeiras de 1993, de 1999, e até do escrete cancerígeno de 2006, que detinha em seu esquadrão jogadores como Edmílson, o Canhão do Pantanal.

Mas não vamos falar de coisas ruins.

Até um mês atrás, havia outra coisa que me inflava os sentimentos e me desfazia na mediocridade quando eu tentava executar, e não apenas curtir :

Música.

Para total surpresa, evolui muito bem nas aulas de guitarra, recebendo elogios e um tom cético da professora perante minha reafirmação de que eu parecia um babuíno ao tentar fazer acordes no violão.

Tal evolução me incentivou á buscar um maior treino, ainda que não direcionado nem tutorado, no esporte mais interessante do planeta. Que me desculpem - que se explodam - os outros.

Topei o desafio, e trouxe minha camisa verde claro do Palmeiras 2013, uma homenagem á Academia dos anos 70, meu shorts meia boca e uma kichute lotada de travas de plástico vagabundo chinês.

Logo de cara notei que iria ter que superar um certo nível de imbecilidade própria, pois a quadra era de taco, e travas se usam na grama. Eu iria ter que me esforçar para não patinar como um maldito aprendiz de esquiador.

Ignorando tal fato, me dirigi junto com alguns colegas até o local marcado.

A quadra era bonita e coberta, porém as instalações eram dignas de um matadouro clandestino.

Tudo perfeito como deveria ser.

Equipes escolhidas, começamos o jogo. Acerto dois passes com calma, e de repente já alcancei meu maior recorde pessoal em passes concluídos seguidos.

Penso, evito desespero, ganhamos uma. Acaba com dois gols, entra outra time.

Vou pro gol pra revezar, já esperando a frase "chuta que é gol" e preparando o dedo do meio como resposta, mas pouco sou ameaçado, até que o cara com o chute mais ignorante da porra toda ganha do zagueiro e aparece na minha frente armando a bicuda mortal.

Defesa filha de uma puta !

A bola vem a meia altura, tento defender avançando com as pernas mais abertas numa tentativa de fechar o ângulo - igual um goleiro de Hockey, um esporte no qual coincidentemente pessoas patinam também - e consigo milagrosamente (pra mim, é claro) explodir a pelota pra escanteio.

Tento retomar o equilíbrio logo em seguida, não consigo, dou quatro passos pra trás agitando os braços no ar e caio dentro do gol espalhafatosamente.

A torcida de bastardos lá fora grita como se fosse um título, mas eu me levanto feliz por ter evitado o gol adversário. Todos querem ver o craque do time pagando mico, essa é a única explicação plausível.

Ganhamos mais três jogos seguidos, e no último deles, mando um cacete de assistência de primeira, á meia altura. A bola cruzou por trás da defesa desprevenida (porque afinal de contas ninguém esperava nada melhor do que uma espirrada ou uma matada de bola com a canela) e encontrou o pé calibrado do companheiro de equipe, que fuzilou o canto.

Aquela assistência tinha sido melhor do que marcar um gol. Eu havia feito algo inteligível. Evoluí uns dez anos ali.

Fomos eliminados posteriormente. Voltamos depois, no time dos sem camisa.

Preciso dizer algo : odeio tirar a porra da camisa. Você pode dizer que é viadagem, e eu vou mandar você tomar no cu. Com todo o respeito.

Mas tirei, porque aquele parecia um dia de melhorar meu status de "negação absoluta" para "talvez haja esperança num futuro distante".

Jogo, barro dois chutes fatais, faço um desarme arrancando canelas no caminho, como um zagueiro-zagueiro.

"Caralho, não foi falta porra nenhuma !"

"Como não foi falta, Diego ? Tá louco ?!"

"Porra nenhuma ! Viado !"

O jogo segue, a falta não dá em nada. Certa feita, gritam :

"Levanta esse shorts !"

"Vai tomar no teu cu !"

"Mas levanta primeiro !"

"Entra aqui na quadra que eu te levanto, filho da puta !"

Todos rimos.

Bati neles depois.

Lances normais, na bola. Pedem falta porque só sabem chorar quando perdem o doce.

Já lá pelas duas horas na quadra, e uma admiração pela minha capacidade de não pedir arrego mesmo com a kichute ching ling me fodendo a planta dos pés, tento defender uma bicuda com a mão espalmada.

Erro primário de cabaço. No futebol profissional, o goleiro sempre vai de punho fechado em bolas assim.

Descobri com meus dedos formigando de dor e com a bola no fundo das redes o porquê.

Me fodi, mas na outra partida, tentaram me dar o drible da vaca.

Um cara maior que eu, mas aí vou te falar, aconteceu algo que realmente foi sem maldade. E foi o meu melhor lance. Me consagrei como beque, volante marcador, sangue nos olhos e chuteiras, Gattuso do Terceiro Mundo, Amaral da nova geração, Odvan branco.

A bola passou. Ele não.

Não só não passou, como voltou bem uns cinco metros pra trás até sentir o gosto do chão.

Juro que achei lance normal, já que apenas fiz uma jogada ombro á ombro (que acertou meio na clavícula) e se não fossem os protestos do mesmo, eu nem lembraria de ir lá ajudar á levantar e pedir desculpas.

Acho que ele não aceitou, porque não me respondeu, mas porra, é futebol, não é videogame.

Termina o certame, os escretes vão pro vestiário de açougue.

Roupas trocadas e cara lavada, me encaminho pro boteco ali do lugar.

Os donos da birosca são dois senhores. Palito de dente na boca, cabelo branco, camisa social abrindo na barriga, foto de time campeão de 1973 na parede. Paredes cor de mijo, louça na pia, meia dúzia de tiozões discutindo carros no balcão ao lado.

Um rádio toca alguma música do Erasmo, a televisão é uma daquelas antigas, com direito á antena analógica e imagem toda zebrada.

Meu maior respeito e admiração pelo lugar.

O senhor acena com a cabeça pra mim, entendo que isso é o "posso ajudar ?", pego um Gatorade na geladeira, já com vergonha de não pedir uma Brahma, que tenho certeza que é a única marca existente ali, mas tento me recuperar evitando a pergunta constrangedora - se aceitam cartão.

Pago com uma nota de cinco, meio suja, meio colada com durex.

"Tu tava jogando ali agora, né ?!"

"Tava sim"

"Do cacete, foram até o final."

"Valeu, cara"

"Voltem sempre aí, garoto."

"Pode ter certeza."

Me despeço de todos aqueles que eventualmente parei acintosamente sem falta, coloco a mochila nas costas e vou embora com alguns amigos.

Na mente, no espírito e nas marcas da canela, só uma certeza.

Eu havia finalmente disputado uma verdadeira partida de futebol.














segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Mate um sonho, ganhe uma vida.



"Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a vida ?"

Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser


Era um dia entre nuvens e abafado.

O fim de tarde jazia entre as baforadas dos escapamentos de carros e o movimento apressado de quem queria chegar em casa.

Dobrei a esquina da avenida e entrei na rua atrás da estação, esta já rareando de qualquer presença humana tranquilizadora.

Por vezes, prostitutas e traficantes de baixo calibre dividiam suas quadras, e como tal quem saia do expediente evitava o lugar. Por sorte, isso fazia o ônibus pra casa passar inacreditavelmente vazio ao final dela, antes de lotar na sempre apinhada (e teoricamente segura) central municipal.

Eu era um cara que apreciava lugares vazios, mais do que qualquer receio de ser vilipendiado em via pública por algum noia descompensado.

O sentimento anti-social vencendo o instinto de sobrevivência urbana. Coisas que São Paulo faz por você.

Vejo uma pichação no muro branco e cheio de buracos de bala. "Deus não habita em templos".

Também não deve habitar nessa rua imunda.

Noto uma cápsula deflagrada e achatada caída no meio fio.

Naquela manhã, eu havia ouvido uma notícia no rádio.

Um tiroteio ocorrera no subúrbio. Um grupo de extermínio decidira executar jovens numa praça frequentada por usuários de cocaína.

O Kadett varou a esquina cantando pneu, três encapuzados desceram e descarregaram suas submetralhadoras por todo o lugar.

Um fedelho levou quinze tiros na perna e ainda sobrevivera pra contar a história. Provável que não durasse mais do que algumas horas no hospital.

Os outros morreram.

Mais do que uma história rotineira, houve uma fatalidade á mais.

Uma das balas foi em direção á um barraco logo ali, numa rua adjacente á praça.

Dentre tantos quilômetros de lugar que a bala poderia atingir, ela decidiu correr veloz e furiosa na direção de um bebê de onze meses.

Se fosse feita de alvenaria, como o muro do Deus-que-não-habita-templos, na rua das putas, a bala provavelmente não teria passado. Se passasse, teria tido a trajetória desviada o suficiente pra matar a televisão e não a criança.

Mas não. Era uma chapa fina de madeira inflamável, a bala seguiu o destino traçado e o xodó da família agora era uma massa disforme e sangrenta.

Deus não habita em templos. Deus não habita em barracos.

Tudo isso por uma questão banal. Um tiro dado pelos motivos errados, na direção errada, de uma casa errada, atinge a pessoa errada, BUM, uma injustiça terrível, dor, dor, dor, sofrimento, notícia na TV.

E você acreditando em universo conspirando pelo seu sucesso depois de ter visto aquele documentário sensacional (mentalize e o universo trará - oh sim, mentalizando !).

Em um mundo aonde pais recolhem os miolos dos filhos no café da manhã, você ainda se surpreende e revolta porque babacas são mais amados do que caras legais e seu nome não apareceu na lista do vestibular após alguns meses de sacrifício e renúncia á seus desejos mais íntimos.

Faltam duas quadras, uma senhora de tolerância abre o casaco e mostra a lingerie usada.

"Trinta reais por um final de dia feliz, querido."

Eu ignoro.

"Gosto quando ignora. Os mais difíceis atraem mais mulheres"

Respondo dessa vez.

"É verdade, senhora".

Ela solta uma gargalhada de som arranhado, entre dentes faltantes numa boca escancarada.

"Vai com Deus, meu bem !"

Deus não habita na rua das putas, senhora. Aviso ele quando o ver.

Retomo o pensamento sobre a fatalidade banal que matou o bebê.

Nietzche dizia que o mundo do ideal proposto por Platão e sua escola era um câncer que havia causado um estrago imensurável na humanidade.

O realizável tem limite, a imaginação não.

Viver em torno do que sua mente produz (e é induzida a produzir) como ideal é como correr atrás do rabo eternamente.

Somos cachorros em busca de satisfação além da trepada no cio.

Depois de tantas porradas e cicatrizes, eu havia ficado niilista pra caralho.

Vendi minha alma pro diabo por níquel algum. Entreguei os pontos por perder o tesão em viver nesse grande show psicótico que chamam de mundo.

E foi ali, quando eu esperava o inferno da eternidade sem sentido, que encontrei felicidade.

Um caralho de reação inesperada, mas admitir que o mundo era um lugar sujo, cruel, filho-da-puta, sem lógica e mérito algum e que nos permitia pequenos intervalos de realização me fez me sentir mais inteiro, realizado e contente por pequenas coisas do que nunca.

Passei á viver o momento, á notar a beleza de cada coisa por menor que fosse. A felicidade já não vinha apenas nas grandes vitórias que levavam semanas pra acontecer.

Aquele louco do Nietzche era mesmo um gênio.

Afinal de contas, quando você tem consciência de que a justiça é falha e você pode se foder em níveis estratosféricos independente do que faça ou do Deus acima de nós (embora você possa prevenir isso para porcentagens menores de risco), seus problemas de primeiro mundo deixam de existir e você larga suas mediocridades diárias para se entregar á uma existência construtiva e verdadeiramente poderosa, no qual o propósito é ser além, sem amarras inúteis que sufocam sua vontade de potência, sua grandiosidade.

Penso que a vida na civilização é uma evolução constante na história. No meio de todo esse mar de bosta, ainda assim, somos a geração mais abençoada em todos os sentidos. A humanidade e o mundo sempre foram piores do que atualmente são, tendendo a aumentar essa piora conforme você se afasta pra trás na história linear.

Porém, nunca houve tanto consumo de remédios tarja preta, livros sobre alegria, terapeutas, igrejas que prometem redenção e todo o resto que pareça uma boia salva vidas.

Provavelmente porque nunca se falou tanto em como "você merece o melhor" ou "você é especial".

Você é especial. Mas não pra vida. Pra ela, você é um homo sapiens á mais, um número. Ela vai pegar pesado com você em algum momento, independente da sua cor, credo, posição social, caráter ou volume de doações pra Cruz Vermelha.

E se você for bem assim, pés no chão e realista de que isso é o destino mesmo, acontece com todo mundo mais cedo ou mais tarde e foda-se (ao menos vou apanhar de pé e sorrindo, sua vadia), bem, tu vai até aguentar bem e nem vai levar muito pra frente toda a consequência dolorosa da infelicidade que lhe acometeu naquele instante. Vai aprender com ela.

Mas use esse papo de que você é especial, aguarde ansiosamente que ela lhe trate como sua adorada mãe lhe trataria, e todos nós sabemos que seu rabo gordo será o próximo á entrar na fila do psiquiatra.

Lembro do personagem Comediante, de 'Watchmen'. Um leitor incauto pode achar que esse anti-herói é um vilão sádico que merece morrer, mas quem conhece mais á fundo essa maravilhosa HQ sabe que Comediante nada mais é do que um cara que foi á guerra do Vietnã, viu que o mundo em vários momentos era um puta circo cheio de coisas erradas e ao ter contato com o sofrimento extremo, ficou tão deprimido e desencantado que passou á encarar TUDO como uma piada de mau gosto, não levando nada a sério - nem mesmo os valores morais e de certo e errado. Por isso o apelido de 'comediante' e o famoso broche de "Sorria".

Exatamente o mesmo mundo aonde você fica putinho porque pisaram no seu pé no trem mas ignora que um transeunte (que poderia ser você) foi metralhado naquela mesma noite.

Não digo que eu vou sair atirando em pessoas nem que você deve se tornar um sacana.

Não, porra.

Apenas note a imensidão de tudo á sua volta, e o seu tamanho (e muitas vezes, a sua impotência) perante elas.Se a idade do mundo fosse medida num calendário de 365 dias, nossa passagem por ele seria resumida nos últimos 14 segundos do dia 31/12.

Sendo que este mundo está inserido num sistema solar com alguns planetas 20 vezes maiores do que o nosso.

E o nosso sistema está inserido numa galáxia com milhares de estrelas maiores do que nosso sistema inteiro.

E nossa galáxia está inserida num complexo de outras galáxias muito maiores.

E o complexo inserido numa intríseca rede de complexos.

Acredite em mim, quando ando nesta rua deserta e decadente e digo que eu, você, nossos problemas, não são porra nenhuma.

Pessoas podem achar esse discurso horroroso. Babaquice.

Experimente usá-lo na prática.

Nem mesmo o mal (e sua definição relativa) continuam á ter qualquer incentivo ou sentido quando você vive aqui, no hoje. Pois o ato (qualquer um) de violência, quando não traz um retorno imediato, se torna vago e perde qualquer prazer á quem o perpetra.

Espancar quem te roubou o celular ou arregaçou o seu carro pareceria maravilhoso enquanto ele implorasse pra você parar ou resistisse, ao mesmo tempo em que você estivesse espumando palavras de ódio e justiça moral até se acalmar.

Mas se ele simplesmente ficasse indiferente e apanhasse até a morte em silêncio, você se sentiria um monstro. Ou, no mínimo, o ato em si iria perder força com o tempo.

Por viver nessa cidade, de tiros e traficantes, lotações e concorrências, aprendi a ver no outro um adversário.

Quando tirei o valor supérfluo de tudo, o outro virou apenas o outro. Não desejo seu mal, suas coisas, sua derrota.

O que preciso está aqui. Se não está agora, pode estar algum dia, me esforçando e trabalhando nessa direção.

E então, andando nessa rua de putas (que não condeno), de traficantes (que servem a ilusão química pra quem já não sustenta a ilusão mental sozinho), de vazio urbano, mesmo aqui, num lugar tão destruído pelo tempo, eu sinto um ínfimo prazer existencial á cada passo dado. No sol que se põe, no vento que bate.

Cada dia, cada hora, cada segundo é como se fosse o último. Mas não há desespero, há apenas calma, gratidão e uma beleza em meio ao caos.

Deus não vive em templos. Deus não vive na rua das putas.

Deus vive em nós. E quão bom tem sido encontrá-lo.

Dobrei a esquina final e peguei o ônibus.

Outro dia igual pra muitos. Mas não pra mim.



AD INFINITUMN







quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Sobre viver e morrer em São Paulo - Um Quase Epitáfio de Feriado





Uma amiga se despediu hoje de São Paulo.

Arrumou as malas e voltou pros simpáticos cantos de Minas Gerais. Concluiu que uma etapa importante de sua vida aqui e já não havia muito o que fazer.

Passando por cima da individualidade de cada um, tal afirmação sempre me soará estranha, eu acredito.

São Paulo é, provavelmente, o lugar aonde você pode viver qualquer tipo de vida ou experiência. Se uma etapa aqui se encerra, aqui se inicia outra logo em seguida.

Já fui parte de um daqueles casais que ocupam os gramados dos parques da cidade pra tempos depois me tornar um solteiro frequentador de pubs e rock bars, que esfolam seus bolsos em troca de algumas cervejas que não possuam gosto de urina com biotônico Fontoura.

É provável que essa cidade tenha me recebido como um garoto idealista e romantizado, lá pelos 16 anos, e agora me devolva á seus cidadãos como uma dualidade brutal aos 24.

São Paulo é minha terra mãe, meu campo de treinamento, e como tal, ela me lapidou á sua imagem.

Tal como ela, me tornei um quadro cheio de contrastes que não conseguiria explicar em um manual de psicoterapia.

Posso ser fechado e hostil, aberto e generoso, leve e bem humorado ou pesado e arrogante, e tudo isso num definido dia de 24 horas.

Porquê é bem isso que ocorre quando você vive aqui : você pode apreciar obras do Da Vinci em uma exposição e ser assaltado assim que sair dela. Não há espaço para definições estáticas nesse lugar.

Ou você se permite entrecortar seus caminhos desprovidos de qualquer razão possível, ou você irá morrer.

Meus amigos gringos dizem que minha cidade é a maior coisa urbana que já viram na vida. Que não temos a natureza de um Rio ou o charme de uma Paris, mas que a pulsação de nossas ruas os fascinam.

Sim, caralho.

Nós pulsamos caos, e nesse caos nós achamos a nossa ordem.

Entrar num bar na Augusta na sexta á noite ou num estádio de futebol no domingo á tarde é fazer amizade com vinte pessoas numa hora, e nunca mais vê-las. E ao mesmo tempo, entrar num metrô na segunda de manhã e ver dez pessoas que você verá  todos os dias por meses á fio, e nunca falar "oi".

Ás vezes vejo campanhas pedindo mais amor num cartaz colado no concreto cinza, ou um protesto pedindo alterações orgânicas na cidade.

Acho isso tudo muito interessante. Mas não será Haddad, Palomo, José ou Maria que irão mudar São Paulo assim, com uma canetada ou uma decisão zen de final de ano.

Esse maldito - e abençoado - lugar não tem dono, líder ou voz de comando. Suas mudanças partem da vontade individual misturadas num resultado final que a matemática não ousa dizer.

E talvez, exatamente por esse talvez, eu não consiga viver em outro lugar de nosso país que não seja São Paulo.

Aliás, devo dizer : já experimentaram a aventura de pegar o ônibus quando estão atrasados ou o último trem da noite correndo os 600 metros que separam a Matarazzo das catracas da CPTM ?! Não ?!

Pelas gônadas divinas. Façam isso agora ! É revigorante. Fiz ontem mesmo e creio que fiz calhar o apelido que me colocaram de "A Besta da Barra Funda".




AD INFINITUMN






terça-feira, 22 de julho de 2014

Seja um imbecil feliz





Olá.

Você chegou aqui por dois motivos. Ou você acessou este post aleatoriamente, quando chegou ao meu blog (por indicação ou leitura recorrente), ou você é um imbecil.

Mas calma !

Todos sabemos que a gente só te chama de imbecil porque o imbecil somos nós.

Você está certo quando diz que todos os muçulmanos são terroristas. Que programa social é só pra vagabundo. Que todo morador de rua é criminoso.

Que estrangeiro que critica qualquer coisa do Brasil ou o brasileiro é um gringo filho da puta, embora você escute artistas gringos, compre coisas gringas e odeie coisas não gringas. Porque o brasileiro é imbecil e as coisas brasileiras são imbecis, com exceção sua, que deveria ter nascido na Dinamarca.

E todos os outros são uns imbecis mesmo, porque eles não entendem que, em seu QI mais elevado possível, você já vê acima de tudo. Você sabe absolutamente tudo sobre legislação, economia, filosofia, direito internacional e sociologia. Você sabe tanto que pode opinar sobre qualquer assunto. Aliás, você não opina, você dá parecer. É uma autoridade em qualquer assunto, um cano Tigre pra toda obra da humanidade.

Você é foda, e eu sou um imbecil.

Lembra daquele dia que tu falou que todo favelado é trombadinha ? Cara, como assim a Secretaria de Segurança Pública não viu isso ? Cacete ! Deveriam te colocar no Governo.

Aliás, o mesmo Governo que te fode todo dia e você, na posição de líder da classe média oprimida, critica fortemente e impulsiona sua queda nas eleições, com sua vasta influência sobre os colegas de nação. Logicamente, quando um vereador estiver em sua casa, você o tratará bem, afinal, o que se pode fazer neste país de terceiro mundo ? Ser hipócrita é necessário, mas ser imbecil não, isso você nunca será !

Infelizmente, as pessoas são muito burras e limitadas, e te acham um imbecil.

Então, oras, amigo, seja um imbecil feliz ! Não se desgaste postando toda essa sua sabedoria celestial nas redes sociais, nas ruas, nas praças e shoppings. Não, não, não !

Fique sempre calado e comente apenas sobre coisas úteis aos padrões coletivos. Você não irá se desgastar, não irá ter que provar pra todos que você é Ph.D em assuntos universais, e TUDO o que você precisará fazer é aguardar que as sub-raças (sim, você não usa esse termo porque a turma chata do politicamente correto vai te matar) se acabem através dos tempos.

Que te chamem de imbecil, ainda que você não seja. Você é o cara. É a esperança de um Brasil melhor.

Pena que vai pra Dinamarca...

AD INFINITUMN


terça-feira, 15 de julho de 2014

Entre uma cerveja e um blues sempre rola uma boa história.





O terraço do hotel ficava de frente pra 23 de Maio. Atrás do Obelisco do Ibirapuera, o sol começava a se deitar lentamente, inaugurando o fim de tarde e pintando o céu em quatro ou cinco cores diferentes.

Ele estava encostado no balcão, de frente pra vista. Tomava uma Heineken gelada e as gotas caiam vez ou outra na manga da camisa. Estava na terceira garrafa e aborrecido por desenvolver uma maior tolerância ao álcool.

“Bons tempos de ficar louco com uma latinha de Skol”, pensou ele. Por um bom tempo, ele provavelmente foi o bêbado de melhor custo-benefício da cidade.

Ela chegou silenciosa, com aquele case guardando seu tão amado violino. O vestido preto parecia cair perfeitamente nos cento e cinquenta e seis centímetros de altura, e o cabelo preto caía caprichosamente do lado esquerdo do rosto.

Abriu um sorriso e o beijou no rosto.

- Olá.

- Olá. Ótima tarde pra se atrasar.

Ela riu.

- Desculpe. Não sei andar em SP.

- Ninguém sabe. Cerveja ?

- Água. Obrigada.

O garçom foi acionado e rapidamente trouxe o líquido sem graça.

O terraço sempre enchia naquela hora, não porque muitas pessoas gostassem de apreciar o pôr-do-sol (que imbecil não gostaria de ver o pôr-do-sol ? Um montão de pessoas, ao que parecia), mas porque fumar no fim de tarde era um ritual sagrado na civilização paulista.

- Tenho algo pra te falar, Di.

- Não tenho câncer.

Ela riu de novo, mas dessa vez estendendo a mão direita. Havia uma aliança direita gigantesca ali.
Houve um silêncio sepulcral no lugar de “OH-SIM-PARABÉNS-VAMOS-DAR-OS-PARABÉNS-PRA-ESSA-GAROTA-QUE-IRÁ-SE-CASAR-TER-FILHOS-E-ASSISTIR-TALK-SHOW-AOS-DOMINGOS”.

- Eu esperava um sorriso, ao menos.

- Perdão. Fase difícil. Não consigo mais notar a diferença entre as pessoas que anunciam casamento pra mim na quinta e na sexta.

Ela não sorriu. Ele não esperava que sorrisse. Havia algo de muito puto e surpreso no ar.

São Paulo, afinal.

- Eu tô feliz. Tô preparada pra isso e nós damos muito certo.

- Ya.

- Desculpe importunar.

Ela foi se levantar e sair da mesa, mas ele segurou sua mão. Não a que tinha a aliança. Essa coisa de casamento poderia contaminar.

- Falando sério, desculpe. Não quis parecer grosso. Realmente me pegou de calças curtas.

Houve um momento de hesitação, e então as coisas retornaram ao lugar – a garota, o violino, a calmaria.

- Espero que tu seja feliz. E todas as coisas que as pessoas desejam.

- Você acha que tô cometendo um erro ?

- Você é muito nova.

- Você sempre me disse que tempo é relativo.

- Disse. E digo. Mas essa regra não vale pras minhas desculpas.

- Eu só acho que...eu quero. Sabe ? Ele me completa. A única coisa que me amedronta é o peso social que isso implica.

- Sei como você se sente. Uma vez meus pais descobriram que transei com uma namorada lá em casa, durante a ausência deles, e olha, quem disse que homem não sente pressão social por sua vida afetiva, não esteve na mira do chinelo Rider da minha mãe...

- Não ! É sério. Eu só tenho medo de não conseguir lidar com tudo que o casamento envolve assim, de uma vez só.

- Sabe o que eu acho ?

- Vim aqui pra isso.

- Tu deveria viajar o mundo. Chapar. Fazer merda á torto e á direito. Sofrer, sorrir, conhecer o desconhecido, e só depois pensar em ficar grudada ad eternum em um par de calças.

- Não quero. Porquê ele é único,  e posso rodar o mundo e chapar toda a cocaína que tem por aí que não vou encontrar alguém assim de novo.

Ali houve um hiato. Porquê sempre havia uma convicção muito grande no que ele falava, mas quando o assunto era “pessoas insubstituíveis”, algo muito sério e atormentador ocorria nos porões daquele cara, e toda sua auto confiança perante a vida virava choro de criança no comercial de Neston.

Ela estava certa naquele ponto, e tinha conseguido dar nele algo que ele sempre dava nos outros :

Xeque-mate.

- Bom...eu...sim. Pessoas são únicas. Mas você pode achar outro alguém único que seja igualmente compatível contigo. Ou até mais.

- Di...eu não quero outro.

- Entendo.

O sol se pôs de vez, e toda a força que ele tinha nos minutos anteriores em provar que a vida independente e solteira era melhor do que viver com alguém se pôs também, provavelmente atrás do último gole de Heineken. Falar sobre o coração era falar sobre seu ponto fraco. Não poderiam discutir sobre Economia ?

Era melhor, oh sim, Deus sabe que é.

- Saca só, Spalla. Acho que tu é uma guria especial, e as pessoas tão perdidas, cada vez mais. Não perdidas no sentido religioso ou moralista, mas perdidas em nem saberem quem são ou o que querem. Sofrem o tempo todo e cavam a própria cova o tempo todo. Vivem na porra do piloto automático das tendências sociais e mal conseguem distinguir o que é delas e o que é dos outros. As relações hoje em dia são uma merda, traição e superficialidade pra todo lado e se tu, enquanto homem, o que não é seu caso, demonstrar fraqueza ou dependência, BANG ! É fim da linha, irmão. Se for mulher e der bandeira na relação ? BANG ! Fim da linha, gatinha.

Ele parou, pediu mais uma cerveja, e continuou :

- Mas...eu não vejo isso em você.

Ela parecia confusa. Dividida entre estar feliz e estar assustada. É, ele sempre fazia isso.

- Tu sabe quem é. Sabe suas convicções. Conhece seu coração e conhece seus deuses. Se tu me diz que tu ama ele, e essa é sua decisão...eu não tenho nada pra argumentar contra. Você não é mais uma na multidão. Suas decisões também não serão.

Mais um silêncio. Ele ia pegar a nova garrafa, quando ela abriu um sorriso enorme e pulou no pescoço dele, dizendo em alto e bom som  “Você é incrível, Di ! E eu te adoro !” (Porque ? Ele queria terminar aquele discurso no melhor estilo Clint Eastwood, e ela transformou aquele final numa comédia romântica no qual ele parecia o amigo coadjuvante que salva a porra toda. Ok. Ele perdoava.)

- Você merece alguém especial, guri.

Ouch. Poderia dormir sem essa.

- Você também. Vai lá, garota. Sem medo.

- Sem medo ! Eu tenho que ir pro trabalho agora...a gente se fala, ok ?

- Aham.

- Obrigada pelas palavras. Mesmo.

(Outro abraço longo e apertado).

- You’re welcome.

Ela se foi, com as portas do elevador se fechando logo atrás.

Ele se virou, fitou as estrelas que começavam a aparecer.

Só mais uma noite na qual a companhia pra vida toda ainda seria a cerveja e o blues tocando no fundo. Mas ao menos, havia um novo olhar brilhando na selva de pedra. Era bom ter feito parte disso.

Levantou a garrafa, brindou o espaço vazio da noite e disse baixo :

- Á eternidade. Pra todos nós.


AD INFINITUMN

domingo, 15 de junho de 2014

Uma garrafa de Jack, por favor.




Existem dias que possuem peso zero.

Um dia com peso zero é aquele dia que não faria diferença ter existido ou não.

Todos os dias, inconscientemente, ele acordava exasperado á evitar dias assim. Como uma bomba relógio que iniciava ao acordar e explodiria ao adormecer novamente, caso algo de relevante não fosse feito nesse meio tempo.

Escravo de sua condição idealista, aquele estava sendo um dia de peso zero.

Mesmo com tanto futebol por aí. Mesmo com tanta cerveja disponível. Mesmo vendo pessoas que ele parecia gostar - e talvez gostasse mesmo.

Era um dia zero, e já passavam das dez da noite.

Tirou a garrafa de Jack Daniel's da bolsa, com o pouco que restava nela. Descobrira que o velho Jack era mesmo uma delícia, porém, seus tios também haviam feito esta descoberta no mesmo dia, com a mesma garrafa, e antes que o ponteiro maior desse uma volta completa no relógio, ele foi obrigado á resguardá-la em local seguro e protegido para evitar seu total esgotamento.

Família, família, álcool á parte.

Abriu a tampa e bebeu, da forma mais herege e irlandesa possível (embora o Jack seja yankee), no gargalo, um longo gole.

Jack desceu e não queimou como os escoceses adoravam fazer. Era um murro seco no estômago, daqueles que seu conhecido lhe dá de forma camarada em meio á uma brincadeira.

Então veio a sensação seguinte, que Jack sempre trazia : um conforto muscular, um pequeno brilho no olhar, e a sensação de que o mundo poderia queimar eternamente em fogo e morte, que estaria tudo bem para você.

Shakespeare dizia que o inferno estava vazio e todos os demônios estavam aqui, conosco. Os demônios dele apreciavam o Jack, também. Se calavam e permaneciam assim até o efeito passar. Jack era um cara legal.

Estava ali, mirando o nada, sentado na plataforma do trem, quando ouviu um "Blam !", bem ao seu lado.

Seus reflexos e senso de auto-preservação já tinham ido passear do outro lado do atlântico á esta hora, e ele se limitou á olhar para a direção do barulho.

Uma moça, lá dos seus vinte e poucos anos, chorava copiosamente com um celular na mão.

Pra infelicidade dela, o cavalheirismo e as preocupações com terceiros também haviam dado o fora quando Jack entrou, e tudo que ele conseguiu pensar em relação á cena foi um grande foda-se.

Ela chorou por mais um tempo - não dava pra saber quanto tempo exatamente era, porque Jack também fazia a Teoria da Relatividade do Einstein ser muito, muito real - até que na quarta ou quinta vez em que ela olhou pra ele e sua cara inapta, puxou uma conversa :

- Vocês homens não prestam.

Ele olhou novamente, numa velocidade desconfortável - a cabeça parecia ter ido, mas o cérebro ficado - e disse, após uns instantes de silêncio vago e constrangedor :

- Não.

A moça pareceu estarrecida. Ele não entendeu. Pessoas eram confusas. Ficavam sempre putas e levavam pro lado pessoal quando ele discordava delas. E quando concordava, elas o olhavam com aquela cara de "Você usa fraldas ? Seu bosta ! Me diga que estou errado !".

- Então você também não presta.

Ele olhou para os próprios culhões, e voltou a olhar pra ela :

- Bem, sou homem, ao que parece.

Ela riu de forma revoltada :

- Me ironiza mesmo. Não sabe o dia que tive. Não sabe o quanto estou sofrendo.

- Não.

- E você nem liga.

- Ninguém liga.

Agora, mais do que nunca, ela parecia ter sido esbofeteada. A boca fazia um grande "OH !" e os olhos lembravam muito os olhos daqueles touros sendo feridos nas arenas espanholas. Um misto de "vou morrer" e "vou te matar antes, seu filho da puta".

- Existem pessoas que se importam comigo.

- Elas não estão aqui na plataforma, moça.

- Você é um infeliz.

- Sim.

- ...

- Mas beba um pouco do Jack, vai te ajudar.

- Não sou alcoólatra.

- Não, mas é uma bunda mole. Dá na mesma, no final do dia ambos caem na sarjeta da vida.

- O que ?

- Foda-se.

Ele tomou mais um gole e estava feliz pela moça ir dando o fora, mas tudo que ela fez foi levantar e tomar a garrafa de suas mãos, virar dois grandes goles e devolver com uma careta de quem tinha tomado querosene.

Ora, deuses, vejam, aquilo era heresia.

- Jack é um filho da puta, cara.

- Todos somos.

- Sabe o que me dói ? Que quem me faz sofrer não irá vir falar comigo. Não vai ter mensagem no outro dia. Ou consideração. É assim. As pessoas te amam hoje e te fodem amanhã.

"Eu foderia com você", pensou ele, mas ainda não havia tanto do Jack no seu organismo pra inibição ter sumido por completo, e ele soltou a versão aprovada pelo Ministério da Cultura :

- Quem te faz sofrer é você mesma. Ninguém te fode se você não quiser.

- Não é simples assim.

- Na verdade, é, mas você irá romantizar pois se simplificarmos as coisas, veremos que nossas vidas são levadas de uma forma muito medíocre e aquém da nossa capacidade real.

Ela fez novamente - ele se perguntava se os músculos faciais dela eram de borracha - a mesma cara de "OH! Você cuspiu na minha cara, seu chulo, cavalo !".

-...você é um completo desastre para consolar pessoas.

- Um Chernobyl.

- E porque está aqui bebendo ?

- Porque tive um dia zero. Um dia morto.

- Não fez nada ?

- Fiz. E não fez diferença.

- E o que você vai fazer em relação á isso ?

- Vou beber.

- ...

- Você pode beber comigo também, desde que pare com esta auto-piedade digna dos ursinhos carinhosos.

- Auto-piedade é um defeito pra você ?

- Certamente.

- Não é auto-piedade encher a cara numa estação de trem num sábado á noite ?

- Sim.

- ...

- Mas eu tenho consciência de que preciso mudar. Tô mudando. Aos poucos.

- Porque ?

- Porque eu vou ter que me aguentar pela eternidade. Eu sou meu, e inseparável, assim como você é sua. E se é pra ser assim, a relação vai ter que ser boa, afinal. No mínimo, eu tenho que ser alguém que eu respeite. Se não der pra admirar ou amar, ao menos tolerar. E pessoas que se auto-flagelam por hobby me causam repulsa. Não merecem respeito algum.

Ela já ia fazer a mesma - sim - maldita cara novamente, quando o trem veio e ele se levantou.

- Meu trem tá vindo, moça. Foi um prazer.

- A gente se cruza qualquer dia desses.

- Não. Não tenho seu número, não sei seu nome, e você não vai me passar. Nem vai se lembrar dessa conversa por muito tempo, eu acho.

- ...Não, mas é porque eu namor...

- Desculpa, moça. Mas o Jack é a minha pílula vermelha da Matrix. Eu tomo, e em mim só resta a verdade. Você deveria tomar mais, também. Amanhã é outro dia, estarei politicamente correto, honesto, gente fina e sociável novamente, e aí...a gente "se cruza". Não é ?! Cruza sim. Sou um cara legal nessas horas. Legal demais.

Ela fez silêncio e apenas o fitou boquiaberta. Esmurrada novamente. Jack-Filho-da-Puta-Tyson.

Ele entrou no trem, sentou e pegou no sono.

Jack não sabia fazer mentir para si mesmo, ele notou.

Ia comprar uma garrafa a mais.


AD INFINITUMN






domingo, 1 de junho de 2014

A Conquista




Uma vez, um cara disse que a primeira coisa que você aprende quando viaja é que todas as coisas que você ouvia falar sobre outros povos e culturas estavam errados.

E eu nunca nem tinha sequer viajado de avião, mas meu coração pedia demais por novos territórios. Como alguém que cresce demais e já não cabe nas roupas de antes, eu não dava mais conta do meu espírito. Eu precisava de mais. Eu precisava ir além do que o horizonte me dizia existir.

Quando pisei naquele aeroporto, eu mal sabia o que fazer, mas tudo era tão novo e incrível. Eu era como um viking que se jogava ao mar pela primeira vez, movido por suas necessidades tão urgentes.

A forma como o corpo se ajeitava na poltrona. O sorriso da aeromoça. O tamanho das turbinas lá fora. 

Quando a máquina ganhou força e tomou os céus, eu sorri de uma forma que não lembro de ter sorrido por muito tempo. Era como se eu tivesse ganho algo. Ou recuperado. Não sei.

Eram seis e meia da manhã, e eu vi o sol nascendo sobre o mar de nuvens. Me senti, literalmente, próximo do céu. Como se tudo que me prendesse tivesse ficado lá embaixo. Distante.

E quando chegamos na cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos, meu coração foi de 100 á 200. O piloto deu a volta por cima da cidade, e ali eu vi pela primeira vez as praias tão longas, as centenas de barcos, as montanhas cheias de árvores, os prédios disputando espaço com as pedras, e o Cristo de braços abertos.

Esse foi um daqueles momentos mágicos no qual o seu mundo dos sonhos e o seu mundo concreto se cruzam no mesmo instante de realidade. Aonde sua imaginação não faria melhor e sua realidade não te puxaria pra baixo.

Depois de cruzarmos por cima da maior ponte do planeta e aterrizarmos em segurança, eu pisei no asfalto e senti o cheiro salgado do oceano. Respirei fundo. Eu nunca tinha pisado ali. Era uma conquista nova. Um novo lugar pra fincar bandeira.

Olá, Rio. Olá, Novo Mundo.

Me sentia tenso pelo medo do que poderia ocorrer, pelos tantos contos de violência e desventura, mas segui firme e pouco a pouco fui descobrindo a cidade. Fazendo amigos. Deixando os passos duros pra trás e ganhando coragem em cada nova rua do caminho.

Fiquei em um lugar aonde eu era o único brasileiro. A cidade era uma, mas nela, conheci um pedaço de cada parte do planeta, á cada novo parceiro de viagem que ali fiz. E mesmo as tão temidas comunidades me acolheram como um novo filho. Me deram um teto pra dormir e  uma fonte de lembranças.

E foi num dia de greve total de ônibus, daqueles que a gente nem quer sair da cama pra enfrentar, que eu subi lá, no ponto mais alto de todos, pra ver o que todos falam.

Eu, que tanto medo de altura sempre tive. Eu, que reclamava de ver os mesmos caminhos toda vida.

Quando cheguei lá no alto, parecia que dava pra tocar as nuvens. Minhas mãos suavam demais, meu coração parecia gritar, eu sentia meus músculos tão tensos. Tão alto que poderia ouvir o paraíso me chamar.

Então olhei pra frente, e vi a cidade toda sob meus pés. Vi o oceano beijar as areias, vi o azul mais puro da minha vida se dividir em dois no horizonte. O Cristo parecia abençoar o momento, e eu, como sempre tive que fazer na vida - mas nem sempre fiz - encarei o risco e meu temor.

Em meio á tanta gente tirando fotos, por um minuto, eu fechei os olhos e estendi os braços, como o Cristo.

Senti a brisa me enlaçar. Senti um silêncio profundo de respeito daquela imensidão vindo ao meu encontro. 

E por sessenta segundos, foi como se eu tivesse ganho a primeira guerra da minha vida.

Sim, eu estava lá. Eu cheguei. Encarara tanta coisa pesada em tempos anteriores, acreditara naquela chance, se agarrara á ela e sim, ali estava. Eu tinha vencido. Tinha cruzado terra e mar e cumprido a missão de chegar ao novo continente da minha vida.

Pra muitos, viajar talvez seja uma caipirinha pro Instagram ou um novo lugar pra matar a curiosidade. Pra mim, eram quilômetros inteiros surgindo á cada segundo na minha existência.

Naquele momento, eu me senti ligado á algo maior, e acho que a partir dali passei a confiar muito mais em mim mesmo. 

Como dizia Amyr Klink, em um trecho que me recuso á colocar de forma parcial, mas apenas por completo:

""Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. 

Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. 

Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. 

Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”.


Viajar é a melhor forma de encarar a si mesmo. Tu aprende a ver certas coisas sob novos ângulos, e seus fantasmas e medos perdem as paredes nos quais se sustentavam diariamente. 

É um soco na sua cara á cada minuto, porque tudo é tão novo e real que tu não tem tempo pra inventar uma desculpa pra isso ou aquilo que tu deixaria de fazer. Não há justificativas, não há receios, não há o velho.

São dez anos em um dia, e você se sente vivo como poucas vezes se sentiria fazendo o que sempre fez.

Eu poderia lhes dizer das coisas que aprendi, mas explorar é uma questão pessoal. O que você tem a aprender é diferente do que eu tenho, e tudo que tenho á lhe dizer é : vá além. Nem que seja por um final de semana. Vá além. Saia. Se permita. Não fique aí. Cada segundo parado é um segundo a menos de algo que poderia te mudar completamente.

Você tem, por direito divino e inesgotável, ser tão grande quanto quiser ser. Não se prenda por convenções sociais, salários no fim do mês ou falta de coragem de arriscar. Repare que muito do que te faz sofrer tem a ver com aquilo que já não é mais pra você. Saia daí, porra !

Imagine que há mil anos atrás, homens se lançavam ao desconhecido em busca de algo melhor para suas vidas.

Porquê com você seria diferente ? Tu não é menos especial do que eles foram.

Conquiste !

AD INFINITUMN



quarta-feira, 30 de abril de 2014

Libertas Quae Sera Tamen



Minha jaqueta de couro já não bate mais o comprimento do ombro. Mas eu gosto da forma como seu couro velho e batido encaixa nos meus ombros. A bolsa é pesada, mas eu não a sinto.

Talvez tivesse sentido mais nos mil trecentos e sessenta sete dias anteriores. Mas não agora.

Saio do prédio, piso na calçada. O ar frio do outono enche os pulmões e meus olhos refletem as luzes da Paulista.

Coloco meu Sennheiser MX270 nos ouvidos. Josh Homme saúda o meu espírito :


"Shock me awake, tear me apart,
Pinned like a note in a hospital gown,
Deeper I sleep, further down,
The rabbit hole never to be found...


It's only falling in love because you hit the ground"




Eu dou cada passo sabendo que aquele é o único passo naquele instante da minha vida que eu poderia dar. 

Poderia ser uma volta á mais pra casa. Um dia á mais na vida do homem médio. Um porre á mais na próxima sarjeta. Uma bala perdida no escuro da noite.

Mas não era. Aquele era o dia.

As linhas do baixo parecem ditar meu coração. Rápido e indiferente, eu sou aquele que devora metros e segundos em direção ao meu desejo. Meu destino. Meu. Meu, e de mais ninguém. Eu escolhi. Eu.

"It’s how you look, not how you feel,
The city of glass, with no heart…
If I had a tail, I’d own the night
If I had a tail, I’d swat the flies...Yeah, oh oh, oh oh, oh, oh"

Compro uma breja. Gelada, levemente amarga, bebo metade de primeira. O álcool bate no sangue e ali você sabe que alguma felicidade vai existir. Nunca, antes, na existência, me senti tão certo e poderoso sobre algo. Nunca, antes, na existência, parecia existir tanto por mim mesmo.

Eu era o homem na calçada. Da cerveja na mão e jaqueta nas costas. No one cares a fuck about that. E isso me deixa tão completo. Tão vivo. Livre.

É. Liberdade. Era isso.

E nas últimas 72 horas, eu havia amado com tanta pressa, e odiado com tanta calma, e vivido 24 anos em 24 minutos, ao menos assim me parecia quando a barba rala era vislumbrada em um reflexo, ao mesmo tempo em que por dentro pulsava uma única sensação de glória mortal, humana, temporária porém tão rara, valiosa, suprema.

Morrendo um pouco á cada dia pra viver um pouco mais á cada segundo. Não havia cerimônia em pagar o preço.

Não. Ter alguém que não gosta de você pelo que você pensa é maravilhoso. Arriscar ir tão fundo numa garota até o ponto em que ela deixa te de dar corda e te dá uma cortada, é maravilhoso também.

Pensamos que vitória e derrota é o resultado final, mas não. É cada instante. É o caminho, e não a parada final.

Afinal, todos morremos. E eu sou só um cara andando na avenida, escutando seu som, sorrindo pra si mesmo.

Engraçado como até mesmo nas vezes em que a vida insiste em bater, eu dou risada como o filho que já cresceu demais e não sente medo nem dor das pancadas da mãe.

Engraçado como eu desenvolvi uma frieza tão nítida e controlada ao mesmo tempo em que não perdi meu calor humano nem me abstenho de usá-lo diariamente.

Engraçado como aprendi a bater. Odiar, também. E não me sinto mal por isso, nem me tornei alguém pior. Apenas mais completo. Melhor. Mais inteiro. Mais humano.

Não matei ninguém, ao menos. Ainda. Talvez só meus monstros. Ah, como eu gostei de matá-los, todos eles, e vê-los seu sangue - meu sangue, pois os monstros são meus - escorrer pra fora de mim. Adeus.

Parei no semáforo e o homem de rua, da barba desgrenhada e do rosto sujo, virou pra mim e disse algo. 

Não ouvi.

Tirei os fones, e não esperei ele repetir.

- É uma boa noite para um homem livre viver, senhor. Viva a sua o melhor que você puder, pois livre você já é.

E ele abriu um sorriso, cheio dos dentes faltantes e amarelados. Mas ele sorriu. E quando atravessei, olhei pra trás colocando o fone de ouvido, ainda em tempo de ouvir mais um trecho...

"There ain’t no use in crying,
It doesn't change anything,
So baby, what good does it do ?!"



...e vê-lo me fitar com aquele brilho no olhar, estático, no meio da cidade que não enxerga seus membros mais valiosos, o eterno deserto de pedra e paixão que São Paulo é. E eu a amo, Deus sabe que sim.

Eu conhecia aquele brilho. Oras, senhores, não mendigaria. Não se trata disso. Centelhas divinas não enxergam classes sociais. Elas existem no momento em que você vive a sua verdade.

E eis ali dois homens verdadeiros naquele instante, que se cruzaram e se reconheceram. Oh, merda, a cerveja está acabando.

E dali vinte e quatro horas (em mais uma daquelas que duram vinte quatro anos em vinte quatro segundos), eu estaria bebendo com amigos e descendo pela boemia da capital.

E dali vinte e quatro momentos, eu estaria cruzando os céus e conquistando o meu pedaço do lugar aonde tudo continua lindo, de fevereiro e março, quarenta graus, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos.

E dali vinte e quatro ideias, eu estaria em outra fronteira, aonde o rio de prata banha o continente e dizem que a carne é de tão bom grado. Aonde o velho encontra o novo e onde o tempo parece parar.

E dali vinte e quatro sorrisos, estaria naquele lugar, aonde os prédios são tão belos quanto as mulheres, o vinho é intenso e púrpura, a música é tão única e até o frio aquece.

Esse é o dia, senhores. Esse é o dia, señoritas.

O dia em que, novamente, me engrandeci e sofri, lutei e também perdi. Mas dessa vez, tudo foi tão incrível.

Esse é o dia em que voltei á ser um homem livre.

E continuo caminhando. Pra achar a mim mesmo, cada vez mais.

Um dia, serei eu a cruzar o olhar com o seu. Espero te ver livre também.



AD INIFINITUMN